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1
O TEMPO DE GIL
Gil já foi o mais novo professor da escola. Hoje é o mais antigo. Em 15 anos de permanência, foi vendo alguns colegas se aposentarem enquanto aguarda sua vez de encerrar seu trabalho docente. Alguém disse para ele que tem que cumprir 9.125 dias de trabalho para ter direito à aposentadoria. Ficou com esses números na cabeça, porém prefere esquecer essa contagem por algum tempo, para evitar anseios e expectativas. Quando se aposentam, a maioria dos professores e funcionários geralmente não retornam à escola. Preferem manter distância e assim afastar lembranças ruins dos dias de trabalho cotidiano. Gil prefere não tocar no assunto. Vive dizendo que vai morrer na sala de aula. Morte súbita. E, rindo de si, imagina como seria a reação dos alunos e dos colegas...
Enquanto a morte e a aposentadoria não chegam, Gil busca fugir da rotina criando e recriando formas de estar próximo dos alunos, sem transtornos e fantasias pedagógicas.
Sempre dá um jeito de causar alguma mudança. A última delas foi, depois de quinze anos, trocar para o período da noite, como se o período da manhã tivesse tido morte súbita. Nunca tinha passado por essa experiência. Um funcionário até perguntou o motivo e ele respondeu simplesmente que apenas queria mudar de ares. Estranhou a mudança. Ficou com um frio na barriga que, apesar da sua longa experiências com situações novas, persistiu por algumas semanas. Ficou preocupado em alguns momentos, temendo não se adaptar. Não pensou que seria assim, mas achou tudo muito estranho, mesmo julgando que eram coisas da sua cabeça. Mas não eram.
No primeiro semestre da mudança, aconteceram algumas coisas muito diferentes do comum e também coisas corriqueiras. As últimas serviram para manter a normalidade. Já as primeiras serviram para tirar sua tranquilidade e aguçar seus instintos.
Como sempre fazia de manhã, Gil continuou andando pela escola nos momentos em que se sentia entediado. Era uma forma de fazer o tempo passar mais rápido. Sorte dele que no período noturno tem duas aulas a menos do que as sete do período matutino.
À noite é bem diferente. Depois do intervalo e da merenda, instala-se um silêncio e uma espécie de sonolência na escola inteira.
A cozinha e a cantina fecham as portas, os banheiros vão esvaziando, algumas turmas vão sendo dispensadas, a secretaria também vai diminuindo o ritmo de trabalho. Somente equipe gestora permanece de prontidão, para tomar as últimas medidas do período. Isso facilita as andanças de Gil pela escola.
Ele faz várias incursões, sempre muito rápidas, sem que suas aulas sejam interrompidas: vai ao banheiro, que fica na sala dos professores; vai até algumas salas nas quais as classes foram dispensadas; anda pelo pátio; vai até a sala de leitura, que está sempre fechada e volta para classe.
Antes dessas incursões, sempre avisa alguns alunos que ele confia, para ficar de olho na turma. Olha rapidamente para eles e, com um gesto facial já conhecido, avisa que vai sair e voltará em breve. Assim, Gil observa tudo que é rotineiro e também o que não é comum. Alguns funcionários acham que estão sendo espionados. Mas ele não tem tempo nem como explicar para eles as suas saídas e retornos.
No trajeto dos corredores e escadas, encontra muitos alunos e com eles trava conversas rápidas, umas triviais e outras muito curiosas. Faz perguntas inesperadas e surpreendentes. Assim, as respostas vêm de forma espontânea e é dessa forma que ele fica sabendo de muitas coisas. É uma intimidade e ao mesmo tempo uma cumplicidade com alguns colegas professores, funcionários e principalmente com os alunos. Esses também possuem segredos que só Gil sabe. Outros não falam nada. Apenas passam por ele, cumprimentam e aproveitam esse momento para fortalecer os laços de silêncio. Gil já se acostumou com o período da noite, cheio de segredos e mistérios.
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2
ANA CLARA PRECISA IR EMBORA
Depois do primeiro intervalo, às 20:30, o pátio esvazia-se aos poucos e as salas de aulas recolhem os primeiros alunos que retornam após a agitação da merenda. Ana Clara já retornou, mas permanece em pé no seu lugar de sempre. A mochila está sobre a mesa. Ela olha para todos os cantos da sala.
O professor observa os poucos alunos que chegam e vão se acomodando. Estão sorridentes e tranquilos e trocam olhares sem conversar.
Ana Clara não está tranquila. Com uma das mãos, segura uma das alças levantando e abaixando a mochila repetidas vezes. Olha para o quadro branco e confere se deixou de anotar alguma coisa do resumo da aula. Quando isso acontece, os alunos usam o celular para fotografar os tópicos. Quer dizer alguma coisa para o professor e este então se levanta e vai rapidamente até ela.
- Já fotografei a parte que não tinha copiado...
- Ah, legal!, será que alguém apagou alguma parte? pergunta o professor, querendo puxar assunto.
- Não, eu que pulei o final quando descemos para a merenda.
- Está tudo bem com você?
Antes de responder, Ana Clara repassa os olhos pela sala como se tivesse buscando alguém ausente e demora alguns segundos para explicar por quê está em pé e o que está acontecendo. São segundos que parecem uma eternidade. Ela tem um olhar vago e ao mesmo tempo triste. A mão ainda segura a alça da mochila aguardando a decisão de ir ou ficar na sala. A respiração se acelera e em alguns instantes parece estar ofegante. Ela põe a outra mão no peito e logo retira para fechar o punho e mover o braço de um lado para o outro. É um movimento ao mesmo tempo brusco e lento, forte e delicado, denunciando uma agonia. Não é a primeira vez que isso acontece. Agora, com o professor esperando uma resposta, as coisas se complicaram. Não tem mais como esconder a sua esquisitice nervosa. Ela então, num gesto final, antes da revelação íntima, olha para o teto da sala e se volta para o seu interlocutor.
-Vou embora!
- Aconteceu alguma coisa (claro que que sim) ?
- Acho que vou ter uma crise de pânico, professor...
O professor não diz nada.
Ao perceber que a sala começa a ficar cheia, Ana Clara toma a decisão de sair. Põe a mochila no ombro e caminha rapidamente na direção da porta.
Ela se volta para o professor, agradece com um sorriso, envergonhada, e vai embora.
Duas semanas antes, professor havia colocado no quadro um resumo um tanto diferente dos temas da sua disciplina. Percebendo um certo desinteresse pelas aulas comuns, ele quase sempre quebra a rotina e toca num assunto de interesse mais pessoal ou de curiosidade tecnológica e profissional. É uma prática transversal muito conhecida entre os educadores, para romper o senso comum e provocar novas dúvidas e descobertas. Às vezes funciona, outra vezes simplesmente fracassa. Depende do dia e do momento. A intuição pode acertar ou não. A receptividade é sempre uma incógnita. Mas ele sempre arrisca. Joga a semente e espera germinar. Afinal, os alunos são diferentes entre si no quesito maturidade e nunca estão no mesmo ritmo de tempo interno - “kairós”. A maioria, mesmo as meninas, que despertam mais cedo para as coisas da vida, flutuam em “kronos”, o tempo exterior. Nesse caso funcionou.
A fuga de Ana Clara não foi por acaso. Ela tomou uma decisão que muitas vezes foi adiada e que provocou nela dores insuportáveis diante de uma tormenta interior indescritível. Não foi uma fuga de covardia e sim de coragem. Decisão pensada e refletida, para evitar o pior. Não foi por impulso. Saiu da sala e foi avisar a direção, para sentir-se melhor, mais segura e tranquila. Uma decisão trabalhosa, mas que valeu à pena. Ela não gosta de faltar nem de ir embora. Foi porque precisava.
O professor havia abordado um assunto que pesou na decisão e atitude de Ana Clara. Ele falou sobre saúde mental. Mostrou estatísticas de suicídio nas faixas de idade. Mostrou com funciona a mente e as vivências humanas. Uma abordagem simples, muito curiosa revelando que esse dispositivo que comanda o cérebro é responsável por tudo que fazemos nas 24 horas nas quais estamos em vigília e também quando dormimos. Pensamos, agimos e sentimos as coisas simultaneamente, de acordo com as nossas preferências e necessidades em cada um desses três campos mentais. Nossa sociedade cobra muito o pensamento e as ações, supervalorizando essas duas vivências ao sucesso, porém despreza o sentimento, associando ao fracasso. Nessa visão racionalista, pensar e agir seria força; e sentir seria fraqueza. Um engano grave fingir que pessoas que pensam e agem muito não têm emoções e não sofrem. Eles têm, sim. E sofrem também. O problema é que elas escondem as emoções, negam os sentimentos e esse comportamento de fingir e aparentar força e resistência apenas aumenta o sofrimento, levando ao desequilíbrio com gestos impulsivos e perigosos.
"Vivemos numa sociedade doente (vejam o número de farmácias espalhadas no comércio) e contraditória (vejam o número de pessoas atingidas por epidemias de ansiedade, depressão e distúrbios alimentares). Muitos ainda passam fome. Uma sociedade que não vai mudar se não mudarmos antes, individualmente".
O professor deu muitos outros exemplos desses desequilíbrios e também sobre como podemos mudar nosso comportamento frio e indiferente diante das emoções, adotando uma postura de autocuidado e também de ajuda aos outros. Lembrou da importância de ouvir e expressar sentimentos antes de tomar decisões. Falar sobre sentimentos e emoções pode ajudar a compreender melhor os nossos sofrimentos e também descobrir as mudanças que precisamos nos momentos de crises.
Poucos prestaram atenção na aula, embora copiassem a matéria do quadro. Ana Clara também copiou, rapidamente, mas teve coragem de perguntar e depois dizer ao professor que o assunto a ajudou muito.
O tema da saúde mental gerou um incômodo e até irritação em alguns alunos, não por ignorância, mas por tocar em feridas abertas e escondidas que todos temos. Não são apenas os cortes no corpo que denunciam os ferimentos da alma. As reações agressivas e irônicas, gestos de inquietação ou mesmo o silêncio, revelam situações e dores que ainda não conseguem ser compreendidas e devidamente comunicadas.
Na memória de Ana Clara, diferente da maioria dos colegas, ficaram gravadas as palavras-chave de apoio e disponibilidade para ajudar pessoas com dificuldades emocionais: aproximação, aceitação, compreensão e respeito.
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3
AURORA QUE NÃO DESPERTA
Ninguém é de ferro. Prova disso é a nossa reação de espanto e mal estar quando vemos alguém chorando. Tentamos de todas as formas entender o que está acontecendo, mesmo disfarçando com ironia e indiferença. Uma pessoa chorando próxima de nós ativa os dispositivos da memória e, inconscientemente, lembramos das situações nas quais tivemos que chorar.
Aurora apareceu chorando após o intervalo. Não estava envergonhada por estar chorando. Caminhava de um lado para o outro tentando encontrar seu lugar nas fileiras. Não conseguia lembrar exatamente onde tinha sentado pela última vez. Uma colega, rindo da situação confusa, indicou o lugar exato e, assim que sentou começou uma outra batalha de reconhecimento: encontrar na mochila o material de estudo. Localizados os apetrechos, inicia a busca da matéria folheando rapidamente o caderno, tentando encontrar as lições parecidas com a que estava resumida no quadro branco. Confere várias vezes e não encontra nada semelhante. Indecisa, olha para os lados e pergunta e voz baixa qual é a matéria. Quase ninguém sabe responder.
Novamente a colega que havia indicado seu lugar a salva do constrangimento repetindo a palavra “itinerário” e também, por duas vezes, o nome da professora.
“Eu sei nome dela, mas qual é a matéria”?
Ninguém respondeu.
A professora estava atenta, observando o choro e o comportamento confuso de Aurora. Aproveitando a confusão, já que não era apenas Aurora que estava perdida nesse assunto. Colocou no quadro a palavra “Itinerário”, o eixo temático e também seu nome. Era Flávia, um rosto conhecido na escola pelo bom humor, mas também pelas reações de rigor disciplinar, mistura de braveza e afeto. Cabelos curtos, óculos fundo de garrafa, roupas simples, tênis, a professora estava sinceramente preocupada com a situação. Permaneceu em pé por alguns instantes e logo voltou para sua mesa avisando que iria conferir a chamada da primeira aula. Mesmo perdida, Aurora decidiu copiar os tópicos sobre Sustentabilidade numa parte qualquer do caderno, abundante de folhas em branco. Mesmo ocupada com essa tarefa incomum na sua rotina, continuava chorando e, algumas vezes, ia até o quadro, no qual colocava as duas mãos, conferindo algumas palavras e voltava para o seu lugar sob os olhares atentos de Flávia.
Não era somente a professora que estava incomodada. Alguns colegas revelavam expressões de angústia e temor vendo Aurora naquela situação. Aquilo que, para a maioria, parecia algo banal, para eles era a dor de um sofrimento contido. Sabiam perfeitamente o que estava acontecendo. E trocavam olhares de compaixão sabendo que não podiam fazer muita coisa diante de um conflito pessoal que só Aurora poderia resolver. O que poderia ser feito numa situação como essa, na qual somente a pessoa que sofre pode desatar o nó dessa angústia? A colega que riu e indicou o lugar e a matéria não riu de Aurora, mas da situação. A professora, preocupadíssima, logo entendeu o que se passava e trocava olhares com alguns alunos compreendendo que Aurora estava sendo devastada por um dilema pelo qual todos eles já tinham de certa forma vivenciado ou também ainda estava em curso em suas existências.
O professor de Filosofia era o mais lembrado nesses momentos e seu nome era pronunciado em meio à risos que lembravam os conceitos por ele expostos em algumas aulas. Quando isso acontecia, alguém logo fechava a cara para lembrar que Aurora estava em sofrimento. O único jeito de ajudar era permanecer em silêncio compreensivo, dizendo sem palavras ou gestos, apenas com olhares, que estavam por perto, dispostos a dar um abraço ou travar uma boa conversa, daquelas em que um fala e o outro apenas ouve. Ou então os dois ficam próximos na mesma postura silenciosa e compreensiva.
Aurora estava, como eles, despertando para a vida.
A indecisão não era um erro, mas fase dolorosa de um longo caminho íntimo e solitário. Muitos não suportam essa solidão e sucumbem. Não resistem aos julgamentos nem à vergonha da exposição.
Aurora está perto deles, mas continua sozinha.
Sorte dela é que vem aprendendo a arte de estar sozinha, consigo mesma. Se desliga do mundo. Abandona o relógio e adota a bússola. Nesse instante vem à sua mente a imagem confusa das noites frias do polo norte. A névoa toma a forma de ondas luminosas de cores diversas nas quais predomina o verde espantando a escuridão e depois desaparecem no céu infinito. É o Kairós. É a Aurora.
É hora de encerrar o período. Uma inquietação sonora toma conta dos corredores, embora estejam vazios. O som de alvoroço vem das salas de aula. A inspetora bate à porta e entrega um cadeado aberto para Flávia. É o aviso de que essa é a última aula. Muitas vezes o cadeado chega antes do horário normal de saída. Nesse caso o alvoroço aumenta. Poderão sair sem ter que voltar com pressa para casa. Poderão ficar nas esquinas, sentados na calçada ou encostados no muro sem serem incomodados. É o melhor tempo da escola.
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4
ZÉ RICARDO PROCURA E ACHA
Todo mundo conhece José Ricardo. É talvez o rosto mais conhecido e lembrado da escola. Sua fama local é inegável e ninguém ousa superá-lo porque somente ele tem coragem de explicar o motivo de ser tão conhecido, temido e respeitado (exagero de linguagem).
Pois bem. Todas as salas de aula do andar superior possuem nas portas um pequeno visor de vidro e em todas elas os alunos mais altos colocam o seu rosto para dar o ar da graça. José Ricardo é o recordista nessas aparições. Enquanto maioria dos alunos têm dificuldades para serem vistos, ele simplesmente tem que abaixar a cabeça. E quando isso acontece arranca gargalhadas dos colegas que estão na classe. Os professores nem ligam mais porque já sabem quem é e do que se trata. José Ricardo virou moda e exemplo para os alunos que gostam de vagar pelo corredor. Então, para fugir desse desgaste de ter que dividir a fama com muitos alunos, ele adotou a estratégia de sumir e reaparecer somente quando os corredores e o pátio estão vazios. Ele percebe o silêncio e sempre dá um jeito de desaparecer da classe e ser visto em outros cantos da escola. Lembrando que esse é o período noturno e que o seu horário de ação é logo após o intervalo, nas duas últimas aulas. Enquanto as aulas seguem o seu curso, José Ricardo segue na sua trajetória de aparições. Às vezes pula uma ou outra sala, com receio de alguma hostilidade, vaia ou da repreensão de algum um professor que está de pavio curto. Sempre encontra uma boa desculpa ou explicação por estar fora da sala. Não vem todos os dias na escola. E não explica o motivo das faltas. Desaparece nos dias de semana mais frequentados e reaparece nos demais, que são apenas duas noites. Na sala dos professores volta e meia José Ricardo é lembrado. A professora Roberta, sempre com semblante sério, relata em tom de medo que descobriu o motivo dessa mudança de frequência, pois antes ele não faltava.
Numa sexta-feira chuvosa e fria, quando se dirigia para uma das salas dos fundos do térreo, ela encontrou José Ricardo. Vinha caminhando rápido e, quando a viu, parou e aguardou que se aproximasse. A professora percebeu que duas pessoas, que ela não souber identificar, também caminhavam rápido na direção oposta desaparecendo de vista ao se dirigirem para o corredor dos banheiros, que aliás estavam fechados. José Ricardo estava desfigurado, pálido e com os olhos esbugalhados. Não disse uma única palavra. A professora pensou que se tratava de alguma negociata mal resolvida e seguiu em frente. Foi quando então José Ricardo decidiu falar.
- Professora, não vai por aí. Dá um tempo!!!
- Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu...
- Quem são aqueles alunos?
- Não são alunos, professora.
- Como assim, como eles entraram?
- Não sei.
- Foram para o banheiro. Vou ter que avisar a Dona Ruth (inspetora).
- Não faça isso.
- Não entendi. Ou melhor, já entendi.
- Não é nada disso que a senhora está pensando...
- Não tenho nada a ver com o que você está fazendo, mas se trata da nossa segurança. Essas pessoas não deveriam estar aqui.
José Ricardo fechou os olhos colocando a cabeça entre as mãos.
- Eles não são alunos...
-Eu sei que não são. Nunca os vi na escola.
- Não sei quem são, professora, mas uma coisa eu sei: eles não são desse mundo.
- Ah, com certeza não são mesmo... Ha, ha, ha !!!
-É verdade, professora. Não brinca com isso. Eu vi os rostos deles. São horríveis...
- Não me diga que...
- É isso, professora. Não viu as roupas deles? E o cheiro, nossa....
Chocada com a explicação de José Ricardo, a professora vasculhou rapidamente sua memória e reviu as duas pessoas caminhando. Era um casal de jovens. Embora estivessem de costas, deu para ver nitidamente que seus cabelos estavam enormes e desgrenhados. E as roupas e os tênis...que estranho... eram trajes que não via há muitos anos...
- Como eles conseguiram entrar no banheiro se não vi ninguém no bebedouro e no pátio?
- Não sei, professora. Mas eles ficam sempre lá. Só saem à noite. Acho que...
- José Ricardo, fique calmo.
Eu já estou mais calmo, professora. E a senhora, está bem?
- Vamos fazer uma oração e voltar para a classe!!
- Vamos, sim, professora.
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5
RONALDO DE OUTRO MUNDO
Andando pelo corredor, segundos antes de entrar na sala de aula, Ronaldo já percebe a inquietação: conversas, gargalhadas e o arrastar das cadeiras. Aparece na porta, entra com passos firmes, porém olha tranquilamente para todos, como se os olhos estivessem saudando pessoalmente cada um dos alunos. A sala não fica totalmente em silêncio, porém o barulho geral vai diminuindo aos poucos até que cessem a maioria das conversas. Ele cumprimenta a todos com saudação típica que já conhecem e que, nos primeiros encontros, acharam engraçada, por ser totalmente fora de época:
“ Fala, rapaziada! Tudo bom com vocês? ”.
A saudação logo é seguida de alguns cumprimentos isolados e espontâneos, que de certa forma falam por todos os presentes, pois não tiram os olhos do professor. As reações são diversas. Uns contentes pelo retorno, outros espantados, outros curiosos, alguns intrigados e ainda alguns desconfiados daquela figura diferente e cativante.
Ronaldo destoa dos demais professores. Ele é substituto e entra nas salas eventualmente. Não entra em todas as salas. Geralmente prefere as salas do piso superior. Brinca o tempo todo, principalmente quando os assuntos das aulas são pesados e desagrada a maioria. Ensina matemática, física e química. Explica de forma muito diferente, rápida, como se fosse um youtuber. As aulas não duram mais do que dez minutos. É incrível. Todos ficam perplexos e fascinados porque simplesmente entendem o que ele fala. Diz que tem um canal no Youtube, mas não é verdade, porque ninguém encontra os vídeos. Quando diz que os conteúdos estão no Youtube todos riem porque já sabem que é uma piada ou uma forma de dizer para prestarem mais atenção.
Ronaldo sempre chega assim, de boa, sem alarde. Dá o recado bem rápido e sai da sala dizendo outra frase muito estranha para os alunos da geração atual:
“Saída pela direita!!!
E vai embora.
Ronaldo não fica na sala dos professores nem no pátio. Às vezes é visto na secretaria, sempre calado, encostado em um dos arquivos ou sentado próximo à uma das mesas desocupadas. Outro lugar onde também é visto com frequência é no auditório, sempre lendo algum livro ou mexendo no seu celular. Ele dá as aulas nos períodos que antecedem as provas e entrega de trabalhos. Parece saber quais os assuntos que estão incomodando e reconhece os alunos que se preocupam mais com as notas:
“Já sei o que tá pegando...”
Numa das salas tem uma aluna que se senta perto da porta, muito discreta. Faz parte do grupo dos curiosos e desconfiados. Ela acha muito estranho um professor eventual fazer o que ele faz, mas este não é o problema, já que todos sabem como são geralmente os eventuais. Quase ninguém percebe que ele só dá aulas nas salas do piso superior. Lembra o nome de todos os alunos, mesmo o dela que nunca abre a boca, nem para responder chamada. Como ele sabe o nome dos alunos? De alguns ele sabe até coisas que ninguém sabe. Um dia ele olhou para um aluno e, do nada, disse para ele não se preocupar porque a mãe estava bem e que tinha deixado um recado no telefone da secretaria. O aluno estranhou porque a mãe não tem telefone e nem gosta de falar em telefone; estava internada em estado grave no hospital e iria passar por uma cirurgia de risco. Chegou em casa e recebeu a notícia de uma tia que a mãe realmente estava fora de perigo.
Ronaldo dá boas dicas de memorização e toques para cada uma das disciplinas, sobretudo as consideradas mais difíceis. Um detalhe: as dicas incluem o gosto pessoal e preferências dos professores dessas disciplinas. Prestando atenção nesses detalhes alguns os alunos começaram a ter bons resultados e muitos outros começaram a aderir.
Alguns professores estranharam a mudança dos alunos e ficaram intrigados, porque eles próprios não mudaram em nada o estilo das suas aulas. As mudanças aconteciam durante as atividades valendo pontos. Um desses professores, desconfiadíssimo, começou a questionar essas melhoras. E se aproximou dos alunos, como ele, desconfiados. Ouviu cada detalhe. Só não perguntou o nome. E os alunos durante a conversas com ele não pronunciaram uma única vez o nome de Ronaldo. Aquela aluna desconfiada, que senta perto da porta, ouviu tudo e não disse nada. Ficou mais intrigada ainda. Ela tinha visto o Ronaldo na calçada da praia. Estava sozinho em um banco de concreto olhando para o mar. Ela não achou nada estranho alguém estar olhando para o mar, porém, em um segundo de distração, olhou e não viu mais Ronaldo. Tinha sumido. Ela pensou que talvez estivesse se escondido atrás de um quiosque, mas o banco estava bem longe do mais próximo. Sumiu mesmo.
O ano passou rápido. No final do terceiro bimestre, Ronaldo desapareceu da escola. No lugar dele veio outro eventual. A menina que tinha visto Ronaldo no banco da orla também não deu mais notícias dele para os colegas. Quer dizer, até tinha uma notícia para dar, mas achou que não seria muito legal falar sobre isso.
Logo depois das festas de Natal e Ano Novo, ela e um grupo de amigos passavam pela rua da escola, já no final da tarde. Era sábado e escola estava fechada. Mas, em cima de uma das muretas do portão de entrada, alguém estava com o corpo inclinado para observar o movimento da rua, tentando enxergar também o movimento no calçadão da praia. Olha para o grupo e acena para ela. Era Ronaldo. Sorriso no rosto e o mesmo olhar tranquilo. A menina acena de volta dizendo pra si mesma: “Ele vai desaparecer”! E Ronaldo foi desparecendo, como uma imagem de nuvem que por alguns segundos parecia algo bem definido e depois se desfaz antes que alguém pudesse definir e explicar o que estava vendo há poucos segundos. Ela só teve tempo de gritar : “Olha, é o Ronaldo”.
E alguns colegas soltaram gargalhas dizendo:
“Nossa, tá chapando”!!!
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6
RENATO ESTÁ ANGUSTIADO
Noite chuvosa e fria. Poucos alunos na escola. Normalmente alguns deles gostam de ficar nas outras salas para fugir das matérias que não gostam e têm dificuldade para entender. Ou então vão por inúmeras outras razões do que essas meras desculpas. Nesses momentos estão atrás de amigos para conversar e ficar mais à vontade. Hoje essa opção é mais difícil. A inspetora já conhece quem é quem e, na contagem dos presentes, já ordena que cada um volte para o seu quadrado.
Renato teve que voltar para sua sala. Não está satisfeito, porém não reclama da disciplina. Obedece. Sua sala está vazia e alguns dos seus colegas que estão em outras salas ainda não foram vistos pela inspetora.
A professora Ruth está na sala conferindo a lista de chamada e lançando as faltas. Renato está sentado sobre uma das carteiras olhando o celular. Incomodada, Ruth pergunta se está tudo bem. Renato responde que sim. Alguns segundos depois, com o olho fixo no celular, muda a resposta:
- Estou angustiado, professora...
Ruth puxa uma cadeira da fileira próxima e pede para Renato sentar-se de frente para ele. Estão da direção da porta da sala, que está aberta. No pátio estão duas funcionárias conversando. Ruth deixa a porta aberta, apesar do vento frio. Certifica-se de que todas as janelas estão fechadas e volta a abordar Renato:
- O que está acontecendo com você?
- Chateado, professora. Não consigo cumprir com a minha obrigação. Sou o filho mais velho e tenho que ajudar em casa. Não consigo comprar as coisas que preciso. Olha essa minha blusa de frio: está velha, quase rasgada.
- Não consegue arrumar trabalho. É isso que te deixa angustiado?
- Faço bicos, arrumo uns trocados, mas as coisas não andam. Meus amigos me ligam oferecendo emprego onde eles trabalham, mas só contratam quem está com a reservista na mão. Tenho vontade de servir no quartel, mas o tempo não passa. Não consigo servir nem trabalhar direito. Fica nessa enrolação. Não consigo resolver nada.
- Essa fase é realmente angustiante. Está sem paciência né...
- É porque as coisas não se definem.
-Compreendo.
- Eu sou de boa, não arrumo treta com ninguém, sou cristão. Mas hoje não consigo estar seguro. Quero ter as minhas coisas.
-Está insatisfeito com você mesmo.
- Sou um cara legal e, ainda assim, não consigo cuidar de mim.
- Se sente sozinho, sem alguém que goste de você...
- Também, mas assim nem tenho condição de ter alguém. Olha a minha roupa...
- Acha que as pessoas dão importância só para a sua aparência...
- Não é isso. Mas, querendo ou não, isso pesa...
- Você não se sente uma pessoa atraente...
- É isso, professora. As garotas me tratam bem, mas fica só nisso.
- Gostaria de ser diferente do que se sente hoje...
- Ah, sim.
Ruth olha para ele querendo falar um monte de coisas sobre o que realmente a mulheres pensam sobre os homens, mas se contém. Pensou: “Essa é uma descoberta que ele tem que fazer por si mesmo”.
- Acha que suas qualidades não são qualidades de verdade...
Renato vira os olhos para cima e depois tenta olhar rapidamente para Ruth. Abaixa e levanta a cabeças duas ou três vezes. Fica pensando se deve ou não responder e continuar falando sobre si. Está com os olhos úmidos.
- Você tem questionado se vale a pena ser alguém legal e acha que isso é ruim e te impede ter um relacionamento com alguém.
- Eu não sou assim um modelo de beleza né...
- Não sei o que dizer, Renato. Isso é tão contraditório. Engana muito esse negócio de aparência. Mas é um sentimento seu. E você não está conseguindo lidar bem com isso.
- Então estou errado.
- Nem certo nem errado. Está confuso e inseguro.
- Verdade. Estou confuso. É isso que tem me deixado angustiado...
Ruth teve vontade de falar coisas animadoras para Renato. Mas se conteve novamente. Percebeu que já tinha provocado algumas reflexões e descobertas que precisavam amadurecer naturalmente nele.
Ficaram em silêncio por alguns instantes até que, por impulso, Renato passa os dedos nos olhos e rapidamente enxuga no moletom. Olha para Ruth e sorri. Está triste, porém não está mais angustiado.
Parece que a tristeza funciona também como um banho para limpar a alma. O choro, ainda que contido, foi um sinal de confiança na professora e também alívio. Ruth também sorriu e disse a ele que o mais importante de tudo é a chance de conversar e compreender o que se passa dentro de nós.
- Você se sente fraco, Renato.
- Não professora. Não acho que eu seja fraco. Sou emotivo. Emocionado!!! (risos). Isso não é defeito né...
- Tenho certeza que não. Na verdade, podemos ser fortes, mesmo aparentando ser francos.
Na medida que a noite avança, o frio e a chuva aumentam. Dá para ouvir o barulho dos pingos sobre a cobertura de alumínio do pátio. Ruth puxa outro assunto e isso deixa Renato mais solto e alegre. Renato vai até a porta ao notar o movimento de alunos no pátio. No balcão da cozinha já tem uma fila à espera da merenda. Ruth libera-o para sair dizendo que vai fechar a sala. É a hora do intervalo.
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7
DONA ANTÔNIA TEM VISITA
No último mês do semestre a frequência de alunos começa diminuir. . É sempre assim na última semana de junho e de novembro. Tem dias que é preciso juntar os alunos numa sala só. Então surge um novo horário improvisado no qual os professores vão se sucedendo até a última aula. As salas de sextos e sétimos anos querem brincadeira e diversão, mas alguns professores, impacientes com essa situação, preferem dar aulas de revisão. Outros passam filmes e outros apenas conversam e contam histórias.
Paulo entra na sala, senta-se e logo convida os alunos para juntar suas cadeiras em torno da sua mesa, no que é atendido rapidamente. Os alunos já sabem que que “ficarão de boa” nessa aula. O professor faz as perguntas de rotina sobre como estão e sobre os alunos que desapareceram da escola. Não são apenas os alunos que desaparecem, alguns professores também somem sem deixar rastros. Aparecem, cobrem algumas aulas de colegas que estão em licença e “nunca mais dão as caras”. Disso surgem as lembranças mais interessantes dos “desaparecidos”, suas aparições e aparências, características, reações inesperadas, confusões graves e outras somente engraçadas. “Do nada”, Paulo lembra-se de uma aluna que teve quando dava aula para uma turma de adultos. E conta o que aconteceu:
"Ela ficava semanas sem vir para escola e sempre justificava as faltas com explicações muito estranhas. Quando ela voltava a sala já ficava curiosa para ouvir suas histórias do tipo “nem te conto”. Dessa vez parece que a coisa foi grave. Parecia estar muito desconfiada, inquieta, sempre olhando para a porta e para as janelas. Como ninguém tinha coragem de perguntar o que tinha acontecido, Paulo tomava a iniciativa. Enquanto colocava a lição na lousa, ia se inteirando da vida dos alunos. Eles já sabiam qual era a intenção do professor e respondiam rapidamente para que chegasse logo a vez que todos esperavam.
- Então, Dona Antônia. Finalmente a senhora voltou heim. Está tudo bem, tudo paz? O que aconteceu dessa vez?
- Tudo bem, professor. Graças a Deus. Nem te conto...
Era o momento mais aguardo da noite. A classe inteira parava por alguns segundos e, fingindo olhar para a lousa, abriam os olhos e os ouvidos, dependendo do lugar onde estavam.
- Professor, eu tenho o costume de rezar antes de deitar. Mas às vezes eu esqueço. E sempre que esqueço, pode contar, sempre acontece alguma coisa ruim. Mas eu não aprendo. Quando lembro, já deitei... Da última vez, nem gosto de lembrar, já deitada, levantei para apagar a luz do banheiro. Na volta, não sei o que deu mim, fui olhar embaixo da cama. E sabe o que aconteceu, professor?
- Não , Dona Antônia...
- Tomei um tapa no meio da cara!!!!
- Eita!!!, exclamou alguém no fundo da classe seguido por reações de espanto e gargalhadas.
- Seis tão rindo né, porque não foi com vocês.
Paulo lembrou que ficou estático olhando para Dona Antônia, segurando pra não rir.
- Dona Antônia do Céu... Quem foi que deu essa tapa na senhora?
- Não sei professor.
- Coisa do Demônio...
- Ricardão.
- Gente, foi surpresa do Dia dos Namorados...
Paulo lembra que encerrou as anotações na lousa, para conter os comentários mais provocantes, tentando dar uma de curiosidade paranormal.
- Mas a senhora mora sozinha né Dona Antônia. Teve algum pressentimento ruim?
- Tive sim, professor, quando fui apagar a luz já tive a impressão que não estava sozinha e já fiquei com um pé atrás... Sentei na cama, recolhi os pés, mas não me contive e fui olhar... Foi um tabefe tão forte que quase desmaiei.
Nesse instante as gargalhadas foram diminuindo até que o silêncio tomou conta da sala.
- A intuição da gente nunca falha – disse Paulo- é só prestar atenção. Mas a gente nunca lembra de colocar em prática.
- Não sei o que me deu naquela hora. Fiquei encolhida na cama até passar um pouco a dor e depois tomei coragem. Levantei e fui acender a luz do quarto. Acendi todas as luzes. Voltei pro quarto e fui direto pra a cama. Ergui o colchão. Não tinha nada. Mas quando fiz isso, escutei bater o portão do corredor. Bateu bem forte. Corri na janela, sem medo; e só consegui ver que o portão continuava aberto.
- Pode ter sido um gato... disse um dos colegas de classe.
- Foi não. Gato não tem como bater o portão com aquela força. Pra mim era alguma coisa que não é desse mundo e estava com muita raiva.
A culpa foi minha. Não rezei aquela noite...
- Alguém aqui reza antes de dormir? Perguntou Paulo aos alunos que estavam ao redor da mesa. Quase todos levantaram a mão. Mas todos disseram sim balançando as cabeças.
O assunto agora era saber do que tinham mais medo. Todos tinham medos comuns, medos incontroláveis e até inconfessáveis, daquele do tipo “não gosto nem de lembrar”. Paulo encerou a conversa lembrando que tinha medo de defunto. Quando era criança, vivia frequentando velórios, até de gente quem nem conhecia. Depois não conseguia dormir, lembrando do rosto desses mortos. Mais histórias, lembranças e soluções para driblar os medos. Até que surge a última solução antes de acabar a aula:
- Eu corro e vou dormir com a minha mãe... KKK
*
8
RITA NÃO TEM MEDO
Destemida, elétrica, impaciente. Essa é a Ritinha, que seu antigo professor do sexto ano chama de “Fininha”. Faz todas as lições rapidamente para ficar observando e provocando os colegas, querendo chamar a atenção. Está no terceiro ano do ensino médio.
“Continua do mesmo jeito”, lembra o professor Heitor. É um dos que adora contar história sobre fantasmas. Sua história preferida é o estranho caso de Clotilde, que finaliza com um grito de susto e pegar os alunos distraídos. Todos gritavam assustados no final dessa história, menos Ritinha. Ela ria, ria, ria tanto que o professor precisa gritar para ela parar de rir. Ela obedecia, mas ficava soluçando, para que o professor a deixasse sair da sala pra tomar água e dar uma volta na escola.
A primeira vez que ouviu a história de Clotilde Ritinha ficou triste. Não teve medo, apesar do tom dramático dado pelo professor:
“Clotilde, sempre que podia, ia ao cemitério visitar a sepultura do pai. Tinha morrido quando ainda era bebê. Conheci-o somente por uma fotografia de documento (3X4), já amarelada, que achou no lixo quando mudaram e foram morar, ela e a mãe, nessa casa onde vivem hoje. Escondia a foto da mãe.
Sempre que podia também, conseguia ir ao cemitério visitar a sepultura do pai. Cemitério daqueles antigos. Ia sempre escondida e sozinha porque nenhuma amiga tinha coragem de ir com ela.
Certa vez, já quase na hora de fechar os portões, Clotilde decidiu entrar para uma visita rápida.
Já do lado da sepultura, fica olhando para ver se os portões ainda estavam abertos. Era época de frio e já estava escurecendo. Quis colocar a foto antiga do pai embaixo da placa do túmulo. Olhou novamente para os portões e ao voltar-se deparou-se com o pai em pé e encostado numa cruz de pedra da sepultura vizinha.
Assustada, Clotilde ficou estática e muda. O pai se aproxima e arranha o rosto dela, deixando uma pequena marca de corte.
E avisa: “Se você contar para a sua mãe e vou te buscar hoje”!!!
Clotilde olha novamente para os portões e vê que estão sendo fechados por um funcionário. Corre, sem olhar para trás e consegue, aliviada, chegar antes que a corrente juntasse as duas partes do grande portão de ferro fossem travadas por um cadeado. O funcionário não estranhou. Já Conhecia Clotilde e torcia para que ela não voltasse à tempo.
Chegando em casa, encontrou um bilhete sobre a mesa da cozinha. Era de sua mãe dizendo que tinha ido ao mercado comprar um lanche e avisava que estaria de plantão no hospital, cobrindo a falta de uma colega, também enfermeira. Clotilde foi lendo bilhete enquanto acendia as luzes da casa. Tomou banho e procurou esconder o arranhão secando bem o rosto com pó de arroz. Não teve jeito. Ao voltar do mercado mãe percebeu que estava nervosa e fez a pergunta que ela tanto temia:
“Quem fez isso no seu rosto”?
Sem deixar que ela respondesse, a mãe desvendou o mistério:
‘Foi seu pai né.. Eu sabia... lembra que eu te avisei pra você não ir lá’???
‘Preciso ir para o hospital, já tô atrasada’, disse a mãe.
O coração de Clotilde começou a sinalizar o perigo de ficar sozinha. Nunca tinha tido medo e agora já estava tremendo antes que a mãe saísse”.
Rita também estava atenta à história que Heitor contava e esperou calmamente até que professor surpreendesse os colegas, depois de descrever, em voz baixa, como o defunto saiu do cemitério... veio andando pelas rua escuras... abriu o portão... a porta da sala... e finalmente entrou no quarto e gritou : “CLOTILDE!!!
A gritaria de susto seguidas das gargalhadas dos colegas foram intensas e demorou alguns minutos até que voltassem ao normal. Heitor tinha triunfado no seu plano de, mais uma vez, assustar seus alunos. Rita até teve um pouquinho de medo e também gritou, mas foi apenas por farra. O professor percebeu essa reação dela e ficou olhando-a intrigado.
Vendo que tinha sido descoberta, Rita resolveu falar:
- Professor, eu já vi uma pessoa morta.
- Morta de verdade? Reagiu Heitor.
- Morta de verdade... Foi minha tia. Ela apareceu pra mim no corredor da minha casa, já era bem tarde... Estava com o vestido todo ensanguentado. E pediu pra eu avisar a minha mãe.
Heitor e todos ali ficaram quase em choque.
E Rita explicou como tudo aconteceu:
- Não sei o que deu em mim, levantei do sofá e fui até o corredor. Ela já estava lá me esperando e pediu ajuda. Ela foi assassinada, professor. E foi naquela mesma hora que ela apareceu pra mim. Fiquei muda. Não senti medo. Senti pena dela. Muita pena e vontade de chorar. Quando voltei para a sala, minha mãe também estava chorando, sem entender o motivo. Disse que estava com um aperto no coração... Então contei pra ela o que eu tinha visto.
*
9
ALICE NO PAÍS DAS GRÁVIDAS
Alice teve um sonho muito estranho, esquisito. Aconteceu durante uma festa, quando ela se afastou de todos e começou a buscar algumas coisas que ela não sabia exatamente o que era, mas que se sentia atraída. Ela estava sendo observada por um coelho enorme. De repente, Alice está sob uma grande árvore e diante de uma toca, buraco na qual ela cai e penetra num um do completamente diferente da realidade que ela vivia. Alice entrou no País das Maravilhas, composto por coisas estranhas, regido por leis naturais desconhecidas e habitado por seres esquisitos, uns humanos, outros não. Terminada a sua aventura sonambúlica, Alice despertou modificada, pronta para tomar as decisões mais importantes de sua vida. Voltou para a festa e foi conversar com um empreendedor sobre explorações e negócios. Alice estava pronta para viver outra realidade que ela desconhecia e o empresário com quem ela foi conversar era ninguém menos que o pai do homem com quem ela ia se casar. Ele percebeu que Alice seria melhor como sócia do que como nora. Alice percebeu que poderia ser livre, não ficando presa a um casamento, para poder viajar e explorar outros mundos, ganhar muito dinheiro e realizar-se. Isso significa que os sonhos nem sempre são acontecimentos imaginados durante o sono. Eles são muito mais vivos e reais do que a gente imagina.
Voltemos ao sonho de Alice, da Professora Alice.
Conta ela que estava num lugar completamente desconhecido e diferente. Era uma escola que ela conhecia, mas não se lembrava de onde. A escola não tinha alunos. Só professores. Ela caminhava rapidamente para reconhecer os espaços e não conseguia estabelecer uma lógica geográfica de onde estava e para onde ia. Antes de entrar naquele prédio, tinha passado por lugares que parecia ser uma cidade, mas que não era uma cidade comum. Não conhecia os caminhos, as ruas, os lugares, mas conseguiu chegar onde pretendia, que era essa escola. Não era um lugar bonito. Era uma escola antiga, com traços modernos, dos anos 70-80, com cores fortes, azul e amarelo. Estava apressada porque sabia que não ficaria ali por muito tempo. Ou seja, sabia que poderia ser acordada a qualquer momento. Na medida que ia explorando a escola e seus compartimentos, encontrava outros professores e parava para observar o que eles faziam ali. Encontrou vários deles, cada um com características próprias, de aparência e comportamento. Todos conversando entre si e falando sobre suas vidas, seus projetos, suas dificuldades, enfim, pessoas comuns como ela. Chamou sua atenção a conversa entre dois professores. Um estava em pé e o outro sentado, próximo a uma enorme mesa de reuniões. Conversavam sobre números e valores. O que estava sentado era magro, franzino, usando um camisa xadrez, azul e branco, de mangas compridas. Ele explicava ao colega os cálculos que tinha feito sobre o tempo no qual tinha trabalhado, detalhando os segundos, minutos e horas e seus respectivos valores financeiros. O outro escutava atentamente e, além de concordar, acrescentava dados que poderiam ampliar a tese que estava sendo exposta em várias folhas de papel. Este que estava em pé era grandalhão, ruivo, com cabelo e barba grandes. Cruzava e descruzava os braços enquanto ouvia a explanação do colega. Interessante que eles não perceberam a presença de Alice. Ou então ignoraram.
Havia uma grande movimentação na escola, mas Alice só conseguiu prestar atenção em duas situações: nessa que acabou de descrever e noutra que lhe pareceu muito mais estranha.
No canto de outra sala na qual entrou, estava uma professora com um bebê no colo. Parecia estar muito incomodada por estar ali, mas não podia sair. Ao perceber a presença de Alice, olhou com certa hostilidade, mas logo lembrou que precisava ser cortês e mudou rapidamente sua fisionomia com um sorriso. Alice não conseguiu ver o rosto do bebê, porém prestou muita atenção no rosto da professora, que deveria ser a mãe. Mulher branca, de cabelos castanho-claros, crespos e volumosos. Roupas estravagantes, coloridas, de estilo hippie. Nesse instante passam por perto duas pessoas, que pareciam ser os responsáveis pelo local. Uma delas descrevia cada uma das pessoas que estavam visitando a escola e a outra ouvia enquanto ia tecendo alguns comentários sobre o que deveria ser feito para aproveitar a presença de todos naquele lugar.
- Esta é a professora da qual lhe falei, disse a mulher que fazia as descrições.
- Ah, sim, é a professora que planta pés-de-banana no fundo da escola...
- Ela mesma...
Ouvindo isso, Alice percebeu que a mesa estava repleta de pedaços de fibras do caule e das folhas de bananeiras; e alguns objetos inacabados, todos feitos com esse material. Alice, que parecia estar ansiosa e completamente deslocada naquela lugar, foi ignorada pelas duas mulheres, que continuaram seu percurso de identificação. Ao voltar os olhos para a mesa, Alice percebeu que a mulher de aparência hippie não estava mais ali. Os objetos eram outros, completamente diferentes. Ali estava agora uma mulher negra, alegre, com um vestido de listras coloridas. Era bem gorda e seu bebê era idêntico a ela, uma menina, mas que, mesmo bebê, já conversava como se fosse adulta. Comia um biscoito e falava com a boca cheia. Mãe repreendeu a filha, mas não encontrava a palavra e a expressão que definia aquela situação. Alice disse, então: “É feio comer assim, de boca aberta”. A mãe discordou dizendo que não era para dizer essa palavra e que não gostou dessa fala. Percebendo a decepção da Alice, a menina colocou mais um biscoito na boca e, virando o rosto para a mãe, revidou: “´É feio sim”!!! E deu uma gargalhada, tão gostosa que a mãe não resistiu e riram as duas.
Alice ficou meio confusa e logo se viu num outro lugar.
Estava dentro um carro em movimento e que parou ao ver um amigo descendo de outro carro e entrando num edifício de muitos andares. O prédio era tão alto que ela só conseguiu descrever a altura lembrando do prédio mais alto que existia em sua cidade. O amigo estava vestido como se fosse um executivo. Tinha cabelos escuros, os mesmos de quando o conheceu quando eram jovens. Hoje ele tem cabelos brancos. Subindo a escadaria de acesso ao prédio, ela percebeu que o amigo estava com um quipá sobre a cabeça e que segurava uma maleta em das mãos. Ele olhou para cima e, antes de entrar no prédio, tirou o quipá e guardou na mala. Alice viu essa cena e foi embora. Foi quando acordou.
Ao acordar, Alice tenta recompor a memória de algo que aperta o seu coração. Fecha os olhos e tenta lembrar para onde foram as duas mulheres que passaram por ela e a reconheceram. Dorme novamente. Em poucos segundos seu corpo está dormente e se vê indo atrás delas quando se depara com um grande quintal, cheio de bananeiras, muito altas e com cachos roxos. Elas passam por esse bananal e Alice as segue, observando que o dia vai se tornando noite. Alice olha para o céu e vê a Lua, que está esplendidamente alaranjada. E segue os passos das duas mulheres em direção desconhecida. Não está com medo e sim muito curiosa. Olha para o chão e vê que o solo, como muitas folhas secas, está iluminado. Ouve um vozerio de crianças e também de gente adulta que logo cessa num profundo silêncio. Alice tem à sua frente dois prédios redondos, em forma de tendas, cobertos com folhas secas de bananeiras. As paredes são brancas e têm janelas grandes, abertas, sem nada que impeça a visão de quem está de fora. Aproxima-se da tenda à esquerda e debruça sobre uma das janelas. É um grande salão redondo. Não tem nenhum tipo lustres ou lâmpadas em nenhuma parte. A luz é difusa e varia constantemente. Alice fica intrigada e logo percebe que a luz daquele ambiente sai das pessoas que ali estão, umas menos e outras mais iluminadas. Elas estão sentadas, em círculo, em cadeiras simples, que parecem feitas de madeira, mas não são. Uma das duas mulheres que Alice seguiu está no centro dessa roda, em pé. Nesse salão só tem mulheres. A maioria delas têm aparência de meninas entre 13 e 15 anos. Todas estão grávidas. Isso causa uma impressão muito forte em Alice. Umas estão alegres, felizes e outras nem tanto. Algumas parecem preocupadas e algumas estão visivelmente contrariadas. Em cada uma delas destaca-se um cordão luminoso, prateado, quase imperceptível e que se projetam pelas janelas. Os cordões também estão onde Alice está debruçada. A mulher em pé está dizendo algumas palavras e olha para o alto. Alice acompanha esse gesto e vê que o salão está a céu aberto, pulverizado de estrelas. Em seguida a mulher aponta para a Lua e repete algumas palavras. Nesse instante ela fecha os olhos e ajoelha-se no centro do círculo. Está chorando parecendo recordar algum episódio marcante da sua vida, ocorrido num passado muito remoto. Algumas meninas grávidas imitam aquela que parecer ser uma instrutora especial e ficam de joelhos, enquanto outras, confusas, permanecem nas cadeiras olhando para o alto tentando enxergar algo que para elas parecia estar distante; porém, fecham os olhos em sinal de respeito. As últimas palavras da mulher emitem um som forte e ao mesmo tempo delicado e cheio de ternura. “Aos pés de Maria”. Alice nota que os cordões se tornam mais visíveis e vibram de tal forma que espalham pedaços de luzes, como se fossem pétalas de rosas, que caem sobre as grávidas e depois apagam ao atingir o chão. Algumas meninas, rindo como crianças, levantam das cadeiras e tentam pegar essas fagulhas que se movimentam no ar tentando tocá-las ou de tê-las entre as mãos.
Alice está muito incomodada e cada vez mais curiosa. O prédio à direita também está inquieto e ela constata que os cordões luminosos estão em todas janelas, de onde se ouvia diferentes conversas. Alice corre para ver o que acontece no outro salão e fica ainda mais impressionada ao ver que os cordões são umbilicais e estão presos em cada um dos que ali estão.
Diferente do salão onde estavam as meninas, neste as cadeiras estão ordenadas em fileiras. A intensidade da luz é menor. A instrutora está em frente à uma grande tela que flutua no ar, como se fosse uma cortina transparente. Ela está de olhos bem abertos e ali projeta de si imagens enquanto fala pausadamente. Conhece todos e chama cada um deles pelos nomes. Alguns estranham e reagem quando alguns desse nomes são pronunciados, enquanto outros riem lembrando que os nomes pelos quais foram chamados também soaram estranho em seus ouvidos. “Sou eu” ?, “Sou eu” ?, pergunta os que se sentiam deslocados do grupo que ali estava. “Sim, são vocês”!!! responde a instrutora, apontando o dedo para o outro salão. “Esqueceram”? Os cordões ligados à eles se agitavam quando ouvia-se nitidamente as meninas gritarem nomes que elas haviam escolhido para os seus bebês. Esses gritos de chamamento ressoavam nos ouvidos de todos e causava uma agitação silenciosa em todas as fileiras.
Alice voltou rapidamente ao primeiro salão e encontrou apenas uma menina conversando com a mulher que havia apontado para o céu. Esta encerrou a conversa dizendo: “Agora vai, termine sua noite de sono. Não se preocupe. Vai dar tudo certo. E não esqueça da sua Lua”.
Alice volta o ao salão que ainda está agitado. Ela agora está de mãos dadas com a mulher que dispensou a última menina, que tira uma dúvida incômoda naquele momento:
“Todas aquelas meninas são como você. Vieram aqui durante o sono. Pensam que estão sonhando. Você não está grávida, está” ? “Não”!!! responde Alice, rindo. “Não tenho mais idade para isso”.
Enquanto penetram no salão, ela e Alice vão percorrendo os espaços entre a fileiras, sem que fossem percebidas pelos que ali estavam. Alice não conseguia distinguir se eram homens ou mulheres. Eram fisionomias diferentes, bem acentuadas em suas características particulares, umas bem jovens, outras bem maduras e ainda outras no meio termo. Usavam roupas de diferentes épocas, mas reconhecidamente da moda das últimas três décadas. Algumas tinham manchas nas roupas, sinais de ferimentos e pareciam perturbadas. Foram vítimas de abortos. Outras pareciam calmas e davam sinais constantes de alegria. Outras ainda demonstravam dúvida, apreensão, revelando sentimento de culpa. Alice olha para a mulher que segurava sua mão, aguardando uma resposta diante do que acabara de ver. “Isso não novidade para você. Já passou por isso várias vezes; apenas não se lembra. Muitos desses já renasceram, mas ainda estão dormindo aquele sono que os impede de cair em si. Logo entrarão num sono ainda mais profundo e só vão acordar quando enfrentarem as primeiras provas da vida. Outros só vão acordar quando aquelas meninas que você viu derem à luz. Esses ainda estão dormindo no ventre delas”.
Alice abriu os olhos e viu que estava em seu quarto. Era uma manhã de sábado. Acordou com a lembrança do rosto da mulher com quem conversou por último. Tinha um nome na cabeça: Maura. Da outra mulher, que orou ajoelhada, não conseguia lembrar do rosto nem do nome. Mas nunca vai esquecer uma cena que lhe causou um choque íntimo e que não teve a coragem de perguntar para Maura. Quando fixou seus olhos nos rostos daquelas pessoas que inicialmente não sabia definir se eram meninos ou meninas, viu em algumas delas os rostos dos seus alunos, de várias turmas. Achou que era apenas uma associação mental. Mas não, era real. Tanto não era que sentiu um aperto no peito e vontade de chorar. E esta não era uma sensação ruim. Era um sentimento de afeto e que dava significado para as coisas que não compreendia e sentido para sua vida.
*
10
GIL NO MUNDO DA LUA
O pequeno portão da escola, que fica no meio do portão maior, já está aberto. Duas funcionárias aguardam o sinal da última aula do período da tarde. São 18:20. Já está escuro e isso aumenta o anseio dos alunos para sair rapidamente da escola. Logo forma-se uma aglomeração no corredor de saída, apesar de ser largo e comprido. Essa saída restrita e controlada é para evitar a presença de estranhos na troca de períodos. Os alunos com bicicletas aguardam para sair por último. Os professores geralmente esperam os alunos se dispersarem até que o portão maior possa ser aberto para a passagem de automóveis. Outros professores saem com os alunos. É o caso de Gil, que anda apressado até o ponto de ônibus. Nesse percurso de duas quadras ele sempre observa a caminhada festiva dos alunos, em pequenos grupos e também dos que estão sozinhos.
“Até amanhã, Professor Gil”!!!, gritam os alunos que o reconhecem e ele acena com a mão devolvendo a gentileza: “Até amanhã”!!!
Hoje, excepcionalmente, recebeu muitas despedidas, certamente porque ficou olhando bastante tempo na direção deles. Mas não era para eles que Gil estava olhando. Logo que saiu da escola ele olhou para o céu é viu a Lua em formato crescente. Abaixo dela estava, bem reluzente, a estrela, que na verdade é o planeta Vênus.
Em meio às despedidas e acenos, ele não resiste e aponta para céu, gritando para os alunos: “ Olhem a Lua e logo abaixo o planeta Vênus”.
De onde estavam não era possível ver o céu, mas alguns alunos viram quando estavam saindo da escola e responderam confirmando a observação do professor, embora não se mostrassem tão impressionados quanto ele.
No ponto de ônibus, Gil teve mais tempo para apreciar o céu e pôde contemplar com mais calma, embora sua visão e tranquilidade fosse ofuscada pelas luzes dos postes e pelo barulho dos carros. Assim que entrou no ônibus escolheu um lugar para sentar e ali ficou pensando no motivo da sua atração pela Lua e suas impressão com a visão de Vênus próxima a ela. “Será que alguém que está no ônibus viu o que eu vi”? Será que alguém está comentando algo sobre isso. Embora o ônibus não estivesse cheio, pois trafegava no contrafluxo do trânsito, Gilberto não conseguiu identificar esse assunto em nenhuma das muitas conversas que aconteciam entre os passageiros. Fechou os olhos para selecionar o teor das falas, mas não ouviu nada sobre a Lua. Tentou olhar pela janela, mas logo percebeu que a Lua e Vênus não estavam visíveis naquela perspectiva. Desistiu desse pensamento e voltou os olhos para a paisagem repetitiva que via pela janela até que chegasse no seu ponto de desembarque. Antes disso, o ônibus foi se esvaziando na medida que se aproximava do centro da cidade até tomar o rumo da orla, onde tinha seu ponto final. Gil desceu antes. Também queria chegar em casa o mais rápido possível. Não havia motivo para essa pressa. Na rápida caminhada até sua casa tentou novamente ver o céu e não conseguiu, impedido pelos edifícios. Talvez se fosse até a praia...
Desistiu da ideia. Estava com fome. Tinha algo para fazer, mas não se lembrava exatamente o que era. Fez algumas incursões pela internet e ali começou a bocejar, apesar não passar das 20 horas. Instantes depois foi tomando por um sono incontrolável. Já deitado no sofá, não conseguiu ouvir até o fim a música que tinha selecionado no Youtube. Apagou. Dormiu pouco menos de uma hora. Foi um sono profundo, embalado pela harpa de Lavínia Meijer. Quando acordou ainda estava sonolento. Teve dificuldade para lembrar o sonho que tivera. A última cena que ficou gravada em sua mente foi uma viagem de lancha por uma canal marítimo, cuja água parecia um espelho luminoso, apesar da escuridão noturna. Procurou a Lua em vão. Ela não estava no céu. Mas Vênus estava lá, enorme e dez vezes mais brilhante que a Lua. Em seguida, já estava numa grande avenida que ia dar em uma praça gigantesca na qual se via altas cúpulas de vidro. Dentro delas haviam muitos compartimentos, todos transparentes e ornamentados por uma vegetação abundante. Enquanto caminhava parecia estar acompanhado, porém não conseguia ver com quem caminhava. Entre essas cúpulas circulavam trens que flutuavam sobre trilhos que pareciam fios metálicos. Também flutuantes. Se movimentavam em várias direções e desapareciam na escuridão, mantendo sua forte luminosidade. Das cúpulas de vidro emergiam uma luz verde azulada, em formato de vertical ondulado, lembrando a aurora boreal. Olhando na direção oposta essas mesmas luzes tinham a cor roxa.
O acompanhante de Gil, embora invisível para ele e sem usar emitir nenhum som, revelava pensamentos que recomendavam que ele não fixasse os olhos para as luzes roxas, para evitar impressões e energias negativas. Estavam agora em frente e muito próximos de uma tela altíssima, de material vibrante impedindo que avançassem. Os fios vibravam e emitiam luzes ao captar a presença deles. Com essa claridade emitida pela cerca, Gil conseguiu ver o seu acompanhante, sem nenhuma reação de espanto.
- Onde estamos?
- Na Lua.
- Na Lua? Então estou sonhando.
- Não está sonhando. É por isso que só enxerga Vênus.
- E a Terra?
- Está do outro lado da Lua. Estamos na fronteira do lado escuro. Daqui para frente a entrada é proibida.
- Proibida?
- Sim, só entra que está autorizado.
- Você tem autorização?
- Ainda não. Estou em treinamento de Choque Anímico.
- O que é isso?
- São cargas magnéticas para suportar vibrações pesadas.
- O que tem naquela direção das luzes roxas.
- As prisões.
- Quem está preso lá?
- Os opressores. Os que desviam e escravizam consciências.
- De onde eles vieram.
- Da Terra, em sua maioria.
- Eles sofrem ali.
- Sim, muito. Só se acalmam e descansam quando absorvem as vibrações de piedade de quem ora por eles.
- E por que continuam sofrendo?
- Culpa. Ainda alimentam ódio e vinganças.
- O que acontece se entrarmos lá?
- Seríamos envolvidos por vibrações que nos deixariam completamente perturbados e ficaríamos submissos, sem poder de vontade.
- Como isso acontece?
- Pelas nossas fraquezas e inclinações.
- Qual delas é pior para nós?
- O medo.
- Como assim?
- O medo desorganiza todo o nosso sistema de defesa e proteção e nos expõe como presas diante dos predadores.
- É possível controlar o medo?
- Sim.
- Como?
- Treinando. Este é um jogo de dominação e submissão no qual não se pode demonstrar fraqueza diante do adversário ou da situação ameaçadora, mesmo estando em desvantagem. Essa resistência provoca irritação e desconforto em nós e também em quem está se opondo à nós, porém faz o inimigo recuar, embora não se sinta derrotado.
- Como se treina para ter coragem?
- Enfrentamento e ao mesmo tempo agindo com cautela se for necessário recuar. Os inimigos também agem assim.
- O Choque Anímico não protege?
- Sim, mas o controle de sentimentos e das emoções é o que nos governa. O choque é uma proteção externa.
- Todos aqui tomam Choque Anímico?
- Alguns não precisam mais. Possuem forças próprias, adquiridas com o tempo. Mas todos estudam a si mesmos, identificando os sentimentos e as emoções mais vulneráveis.
- E o pensamento?
- O pensamento é raciocínio, não revela nossas fraquezas nem as forças. Os sentimentos, sim. Não mentem.
- Como conseguiram, apenas treinando?
- Orando e vigiando. Orar é treinar esvaziando o frio que se instala no ventre. Vigiar é cuidar para que o frio não retorne. Quando o frio diminui, o coração se aquece e altera a pressão e o calor sanguíneo.
Assim mantemos o equilíbrio.
- O que me trouxe aqui?
- Seu pensamento e sua vontade, influenciada pela impressão que teve ao ver a Lua e Vênus.
- Podemos conhecer Vênus?
- Sim. Se a sua impressão ao vê-lo for suficiente.
- Pode me levar?
- Posso, mas ficaria sonolento e confuso.
- E se eu for sozinho?
- Sozinho você nunca vai estar. Mas é preciso estar se sentindo atraído.
Nesse instante Gil abre os olhos, acordado pelo barulho vindo da rua. Seus olhos procuram o teto e as paredes tentando se situar. Isso vai levar apenas alguns segundos. Como despertou bastante impressionado, vai lembrar de quase tudo que viu. E pensou:
“Isso não foi um sonho. Não pode ser apenas um sonho...”
*
11
JÚLIO E O ARCO-ÍRIS
Júlio chega na escola às 6:30. Sai de casa meia hora antes. Apesar da distância de 15 quilômetros percorridos de carro, consegue chegar a tempo.
De manhã, tudo acontece muito rápido. São apenas quatro classes e o mesmo número de professores dão conta do período, frequentado por adolescentes do ensino médio. Júlio, Celeste e Catarina dirigem a escola e se revezam nos três períodos e contam com a secretaria Joana, que reside perto da escola e trabalha na secretaria. O período da tarde é o mais agitado e barulhento. São crianças que ainda seguem uma tradição de começar as atividades com uma oração coletiva e rápida no pátio antes de irem para suas salas. Nem precisa dar voz de comando. Basta o olhar de um do professor em uma das quatro filas e alguém puxa em voz alta a declamação, logo seguido por todos:
“Boa tarde Jesus querido, as aulas já vão começar...” concluída com pedidos e agradecimentos.
Nem todos chegam a tempo e, vendo o portão de entrada fechado e o pátio vazio, comentam entre si: “Nossa, já foi o Boa tarde Jesus querido...E agora”? Ficam aguardando até que alguém da direção venha abrir o portão. Explicados os atrasos, cada um vai para sua classe com a recomendação de pedir licença ao professor.
No fundo da escola passa uma rodovia, e logo depois dela avista-se um morro bem alto, pedaço da Serra do Mar e da Mata Atlântica. Em cada época do ano o morro tem, dependendo dos horários, uma aparência diferente. O mais comum são os contornos de neblina no seu topo, dando a impressão que ali começa o céu. Em dias de chuva, a mata realça a sua cor verde e , quando a luz do sol penetra entre as nuvens tentando dispersá-las, forma-se um imenso arco-íris, geralmente no meio da manhã ou então no meio da tarde. Um espetáculo sempre contornado pelo cheiro de barro, de vegetação molhada e também da maresia, pois, no lado oposto à serra, bem perto, está o Oceano Atlântico. Quando acontece esse fenômeno, Júlio vai rapidamente até a cerca da escola e ali permanece deslumbrado até que a natureza encerre essa rara sinfonia de luzes, cores , cheiros e aromas.
Entre o final das tardes e início das noites, o silencia toma conta de todo o entorno. Não se ouve barulho de carros na estrada, muito menos nas ruas, que estão sempre vazias. Nesse intervalo de períodos, Júlio está sozinho no prédio da administração. Até a merendeira dá uma fugidinha até sua casa, depois de preparar a refeição da turma da noite. Algumas vezes, mesmo concentrado nos seus afazeres, Júlio é interrompido por um zumbido em um dos ouvidos., seguindo de ligeiras perturbações de no pensamento e também no batimento cardíaco. Não sente medo nem desconforto físico algum. Tem também alguns tremores no rosto. Em alguns casos, tem sensação de tristeza. Em outros fica com vontade de chorar, mas sem estar triste. É uma emoção difícil de entender e também de explicar. Quando isso acontece percebe que não sozinho. Sai da sala de trabalho e vai até a cerca, no mesmo local de onde observa o arco-íris. Não vê ninguém, porém ouve conversas, que no começo julgava ser da vizinhança. Não era. Instintivamente olha para o morro. Alguém grita em tom de alerta e euforia:
“Pessoal, hora de partir. Todos de olhos bem fixos no alto do morro. Estão nos esperando. Temos que estar atento para o sinal de comando".
Alguns segundo depois a mesma voz grita:
“Alvorada, Alvorada Nova"!!!
Júlio não resiste e tenta unir-se ao coro em movimento. Nesse instante seu coração se acelera e um enorme variedade de perfumes o envolvem provando uma sensação de alegria e também de entorpecimento do corpo. Para manter o equilíbrio, Júlio esfrega seguidamente as mãos, os braços, o peito e depois a fronte . Abre os olhos, olha para o céu acima do morro e volta para sua sala com uma incrível sensação de bem estar.
Antes de entrar vê que alguém abriu o portão principal de entrada. É a policial da Ronda escolar, que veio assinar o livro de presença diária.
Logo em seguida vem a merendeira, pedindo desculpa pelo atraso, pois os alunos já aguardavam o jantar servido antes da primeira aula.
- Aproveitei para dar uma passadinha na Casa Espiritual para ouvir a preleção da tarde”.
Vendo a dúvida e o interesse de Júlio, ela explicou:
- “Sim, a Casa Alvorada Nova, aqui pertinho. Inclusive, seu Júlio, a Dona Vitorinha, a dirigente da casa, pediu para eu agradecer o senhor pela ajuda que deu hoje para as almas perdidas que foram levadas para a colônia”, apontando o dedo para o morro.
- Colônia?
- “Colônia Espiritual Alvorada Nova, professor. Cidade espiritual enorme, aqui em cima e que vai até no final de Santos. Qualquer dia levo o senhor lá”.
- Na Colônia? perguntou Júlio espantado e vendo a merendeira rir da sua confusão.
- Não, seu Júlio, na Casa Espiritual. Ainda não chegou a sua hora. Continue ajudando, viu...
*
12
PAULO PRECISA VOLTAR
São quase nove horas da noite. Da sua sala, Júlio escuta alguém abrir o portão e logo em seguida fechá-lo com o trinco. A escola foi construída um metro e meio acima do chão, talvez prevenindo a invasão das ondas do mar, que fica bem próximo. São quatro lances bem largos e de meio metro cada um deles. Júlio sabe que é alguém que conhece a escola, mas não espera o anúncio de chegada. Vai até à porta de acesso ao bloco da administração e cumprimenta a visita inesperada. É o Paulo, negro, de uns trinta anos, de olhos grandes, quase calvo e com barba. Júlio logo pergunta se está tudo bem. Paulo responde com um “É, mais ou menos... Preciso conversar com o Senhor”. Ele vinha faltando nas aulas do EJA (supletivo de jovens e adultos) há mais de duas semanas. Sua aparência é de cansaço e esgotamento. O sorriso aos poucos vai se desfazendo e seu rosto dá sinais de desânimo e tristeza. Está com o uniforme de trabalho e com o crachá pendurado no pescoço. Faz instalação e manutenção de telefonia e internet. Júlio convida-o para acompanhá-lo até sua sala onde iniciam a conversa com as desculpas de Paulo pelas suas faltas.
- Não se preocupe. Isso tem como resolver sem muitos problemas. Mas, como anda a vida? Me conta, você estava trabalhando até essa hora... que barra heim..
- Nem me fala... é assim todos os dias, das 7 da manhã até à dez da noite. Só B.O. e muita reclamação, dos clientes e da empresa. Eles nunca se entendem e sempre sobra pra nós.
- Está desanimado né...
- Muito, professor. Bastante desanimado. É um trabalho que só começa e não tem fim. As coisas não andam, não se resolvem.
- Não faz sentido pra você...
- Eu faço por fazer, tenho minha contas pra pagar, mas sabe quando você começa a perceber que tá dando voltas e não avança, não melhora, não tem mais pra onde ir e não enxerga mais nada na sua frente?
- Imagino.
- Eu estou exatamente assim. Tento mudar, mas não consigo. É muita cobrança e não tem nenhum retorno. Daí, pra piorar, lembro que a culpa é toda minha. Não tenho como reagir porque me sinto incapaz e derrotado. Me perguntam por que estou estudando nessa altura do campeonato. Isso me põe mais para baixo. Sei que perdi meu tempo com bobagens porque não tinha maturidade. Achei que as coisas seriam fáceis para sempre.
- Está pensando em desistir da escola...
- Da escola e de tudo.
- Chegou no seu ponto decisivo.
- Sim, na minha travessia. Não aguento mais. Vim agradecer a ajuda de vocês, a paciência. Vocês são pessoas muito boas, querem o bem da gente, mas eu não consigo me ajudar. Fico com vergonha de estar aqui na sua frente falando tudo isso e , ainda assim, não consigo fazer nada por mim.
- Chegar nesse limite não é fácil... É assustador né...
- Não tenho medo. Tenho raiva, de mim mesmo.
- Está decepcionado.
- Muito, com tudo e comigo principalmente.
- A escola não fez bem pra você? Acha que pode continuar.
- Não, quero dizer, sim, fez muito bem. Vocês são maravilhosos.
Paulo não se contem e põe a cabeça entre os dois joelhos e chora convulsivamente.
- Meu Deus, que vergonha...
- Você se sente decepcionado, mas aqui ninguém está decepcionado do com você. Tudo continua igual. A única coisa que mudou é estamos mais preocupados com você.
- É mesmo, onde eu teria chance de chorar sem ser incomodado, KKK (rindo e enxugando os olhos). Ai, meu Deus. Preciso ser mais forte (passando a mão no peito). Ah, que alívio!!!
- Quer assistir as duas últimas aulas e rever os colegas? Se não quiser, não tem problema. Vamos lá só dar um alô. Eles vão ficar contentes. Vai ajudar eles também. Gostam de você, te admiram. Sabe que é verdade.
Paulo topou a proposta e foi até a sala cumprimentar os colegas e o professor. Finalizou dizendo que estava passando uma fase difícil, mas que voltaria para finalizar o semestre. Pediu ajuda de todos e teve muito apoio. Parecia um menino.
Na hora de ir embora Paulo reforço a promessa feita aos colegas. Júlio disse que respeitaria a decisão dele, qualquer que fosse. “Mas venha tomar um café, quando quiser”.
Júlio ganhou um bom aperto de mão e também um abraço.
Paulo desceu as rampas, abriu e fechou lentamente o portão. Acenou para Júlio e foi embora sorrindo.
*
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CARLOS TEM A PALAVRA
Depois de muitos anos lecionando em escolas particulares, o professor Carlos resolveu seguir o exemplo de um colega. Prestou concurso para se efetivar no Estado. 1999 tinha sido um ano muito difícil. Estava desempregado. Um ano antes fez as provas e conseguiu a vaga. Levou uma lista de escolas para escolher na sessão de ingresso, mas logo constatou que não havia as vagas que pretendia. Sua salvação foi uma funcionária da Secretaria da Educação, uma senhorinha de origem japonesa, que confirmou o fim das vagas da sua lista. Mas prometeu ajudá-lo. Perguntou onde estava morando e, checando rapidamente as vagas restantes nos mapas de controle, voltou com três opções, todas segundo elas, ótimas escolas e de fácil acesso. Escolheu. E ali iniciou sua carreira na escola pública, que tanto temia e agora tanto necessitava. Uma bênção. Aquela senhorinha era um Anjo disfarçado, só podia ser.
Quando foi conhecer a escola, a primeira cena que o marcou e que ficou gravada na sua memória foi um retrato de um senhor barbudo, colocado sobre o guichê de atendimento da secretaria , sempre visível para quem entra no prédio. Não era o patrono da escola e sim uma figura caridosa muito conhecida na história paulistana. Era o benfeitor Batuira, imigrante português que casou-se com uma jovem paulistana e juntos realizaram essa conhecida obra assistencial na rua Lavapés. Algum tempo depois ele ficou sabendo que o retrato havia sido colocado por uma antiga professora já aposentada e, desde então, ninguém o retirou, talvez achando que era o patrono. Carlos achou estranho, mas não disse nada sobre o que sabia daquela personalidade e pensou consigo: "A escola está protegida". Tinha a nítida impressão que já conhecia Batuira, mas não se lembrava de onde. Será que tinha influenciado sua escolha e passagem pela escola? Foram seis meses de permanência antes da primeira remoção, deixando vago o cargo que ocupava. A segunda foi , dois anos depois, quando saiu da Freguesia do Ó, removido para o litoral sul.
Nesses seis primeiros meses, iniciou seu período probatório, que acabaria na segunda remoção. Ali entendeu finalmente a diferença entre ensino e educação, que só sabia em teoria. Trabalhou nos três períodos, sempre entusiasmado, também tomando diariamente um choque e curioso banho de realidade. O diálogo a seguir aconteceu no período da tarde, com um aluno de sexto ano. Sentava próximo à sua mesa, para poder enxergar melhor os resumos e desenhos feitos à giz feitos na lousa. Terminado o resumo, Carlos foi lavar as mãos no corredor e voltou para fazer as anotações no diário de classe, que aliás nunca tinha usado:
- Professor Carlos, o senhor têm a palavra...
- É mesmo?
- O senhor é evangélico né?
- Não sou, mas tenho a minha fé.
- O senhor fala igual ao nosso pastor.
- Que legal. E como ele fala?
- Assim do seu jeito, explicando com as mãos e com a voz forte.
- Interessante.
-O meu pai quer ser pastor. Está aprendendo para pregar a palavra.
- Não é difícil. Se ele gostar do que está lendo, vai aprender bem rápido.
- Senhor já leu a Bíblia?
- Sim, na faculdade. Precisávamos entender melhor os governos de Israel, os patriarcas, juízes e reis. Então o nosso professor sugeriu que estudássemos um documento que melhor pudesse falar sobre isso.
- Que documento?
- A Bíblia.
- Ah, sim. Não sabia que e a Bíblia é um documento. Sei que é um livro sagrado.
- Um documento sagrado. A história dos hebreus, o povo de Deus.
- E os alunos da sua classe gostavam desse estudo da Bíblia?
- A maioria achava apenas curioso, mas não ligava para os ensinamentos. Só queria saber das intrigas e das guerras...
- Meu pai era assim, nem queria saber de Bíblia. Vivia no erro.
- É mesmo?
- E sua mãe?
- Ela acompanha ele e leva a gente na Igreja. Minhas irmãs não gostam. Mas têm que ir. Meu pai não quer que elas se percam. O senhor dá aula pra elas. São daquela classe nova, lá no fundo do corredor.
- Sei, da Aceleração. São quantas?
- São três, mais eu. Elas não são muito parecidas. Cada uma é filha de uma mãe. O meu pai era do crime, professor. Todo mundo tinha medo dele. Ninguém tinha coragem de mexer com a gente lá na favela. Ele tinha várias mulheres. Foi minha mãe que tirou ele desse erro. Levou para a Igreja e ele gostou. Estava cansado daquela vida. Juntou todos nós e disse que iria criar todos embaixo do mesmo teto, com a minha mãe. Sabe aquela Kombi velha que para na frente da escola, na entrada na saída? É nossa. A gente trabalha com reciclagem. Com papelão e latinha.
- Vocês ainda moram lá?
- Não, meu pai tirou a gente e fomos morar nos predinhos do Singapura que têm lá perto. Não é muito diferente. Só mudou o tipo de casa. São as mesmas pessoas.
- Eles respeitam seu pai?
- Meu pai hoje é um homem de Deus. É trabalhador. Mas ninguém mexe com a gente.
- E você, gosta dos seus irmãos e irmãs?
- Eu sou o único homem.
- É o varão da família.
- KKK, sou. O pastor sempre diz isso quando me vê...
- Tocou o sinal.
- Deus abençoe, professor.
- Assim seja.
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RAQUEL PRECISA MUDAR
Raquel faz parte de uma classe para jovens e adultos que funciona no período da noite. Ela é jovem, mas sabe que essa juventude já está se esgotando e que precisa se organizar e preparar-se para as mudanças. Seu interesse pelas aulas e pelo saber dos professores é estimulante para outros colegas, embora a maioria não tenha muita noção do que está acontecendo. Sabe que é necessário estar na escola. A média de idade entre eles fica entre 20 e 40 anos. É comum ter nessas turmas pessoas com mais de 50 anos, mas nessa classe não tem.
Raquel quer aproveitar o tempo perdido. Não é somente ela. Muitos abandonaram a escola para cuidar de prioridades e urgências e agora precisam voltar e recomeçar onde pararam.
As crises econômicas e o desemprego despertam o interesse dessa faixa etária pelos estudos. Em 1999 foi o pior momento delas, efeito dos famosos ataques nas bolsas de valores. Um ministro da economia da época dizia que o Brasil estava passado por uma tempestade muito parecida com o Crack da Bolsa de Nova York, em 1929, e a crise arrasadora que veio logo em seguida. Muitos querem fazer cursos de atualização ou profissionalizantes, mas não conseguem por causa da defasagem escolar: leitura com interpretação dos textos, escrita de expressão e as quatro continhas ou operações matemáticas básicas.
Essa história pode parecer atual, mas aconteceu no último ano do século XX. Milhões de pessoas ainda não tinham conhecimento de informática nem acesso à internet, que era muito lenta em com poucas opções de serviços digitais. No início do ano 2.000 os celulares eram raros e com muito problemas de contato. Mesmo assim, as pessoas já tinham noção de que estava em curso uma grande revolução tecnológica porque observavam as mudanças que aconteciam nas empresas. Tudo isso estava na TV, no cinema (que mostrava as novidades dos EUA, Europa e Japão) nos jornais e revistas. Em cidades grandes como São Paulo, essas mudanças vinham pelos aeroportos e se espalhavam rapidamente no mundo dos negócios e do consumo.
Havia nesse contexto um grande interesse pela informação, ainda considerada a principal fonte do saber. Havia também uma incerteza e angústia nas pessoas mais simples, que se sentiam ameaçadas por não terem formação para ocupar vagas de trabalhos, que começavam a ficar escassas. Era um mundo totalmente novo que estava nascendo e que hoje conhecemos e sabemos como funciona. O reencontro com a escola era uma forma de aliviar essa insegurança e falta de perspectiva.
Esse é o perfil da classe de Raquel. Mesmo demonstrando interesse pela escola, muitos não conseguem acompanhar o ritmo dos professores nem assimilar os conteúdos das aulas. Após o intervalo, a sala sofre uma fuga dos que não se adaptam ao curso, que é semestral e acelerado. A evasão é alta nas turmas regulares, mas nessas de suplência é muito maior. Os jovens defasados desaparecem. Os colegas maduros e mais persistentes tentam segurar os mais frágeis, ajudando nas explicações e tarefas, mas não conseguem quando aparecem os primeiros resultados das provas.
Raquel não é uma excelente aluna. Têm dificuldades. Mas se mostra animada e disposta a continuar. Pede ajuda nas tarefas, porém sabe que o ânimo e o entusiasmo é que garante a sua permanência na turma. Ela não fala das suas preferências pelas aulas e professores, mas têm alguns que ela gosta mais e comentava com os colegas, desde às primeiras aulas que tinha frequentado. Isso era mais frequente nas aulas de Luciana, professora de Geografia; e do Rubens, professor de História. Com a professora Luciana, talvez por ser mulher, ela e as amigas conseguiam ter mais proximidade e compartilhar suas expectativas e dificuldades. Com Rubens acontecia a proximidade, mas era de forma diferente. Ele sabia que os conteúdos de suas aulas não teriam a utilidade direta e prática de mercado de trabalho e por isso se concentrava nas experiências vividas pela sociedade em época de crise. Numa das aulas ele descreveu uma notícia que havia lido sobre um lugar especial na cidade de Nova York. Era o local mais frequentado do momento na Big Apple (Grande Maçã).
Curiosos com essa história, os alunos ouviam atentamente Rubens falar das dificuldades das pessoas simples que moram em lugares frios nos momentos em que passam pelas tormentas das crises. A notícia era sobre a biblioteca pública de Nova York, sempre cheia de leitores fazendo pesquisas. Cada uma dessas pessoas tinha uma história de vida diferente, mas tinha em comum o desemprego e a busca de uma nova oportunidade. Rubens então deslocava o foco da aula para falar sobre como aproveitar as oportunidades que aparecem nas épocas de crises. “ A história é cheia desses exemplos de pessoas que só alcançaram o sucesso depois de grandes fracassos”. Na medida que ia falando, olhava para alguns alunos e fazia algumas reflexões sobre como agir e reagir diante dos obstáculos. Eram os que estavam num grau de interesse mais acentuado e por isso chamavam a atenção do professor. Raquel dizia para as colegas: “Ele manda mensagens pra nós e elas se encaixam perfeitamente naquilo que a gente está passando. Incrível”.
Foi assim que Rubens, mesmo sem a intenção de atingir determinados alunos, conseguia dizer exatamente o que eles precisavam ouvir. Diante de alguns colegas mais céticos ou indiferentes, Raquel argumentava com entusiasmo: “Como ele poderia saber que eu estou passando por esse problema? Não disse nada pra ninguém”. Certo dia Rubens foi questionado, de maneira alegre e amigável sobre esse seu talento. Respondeu dizendo que todos os professores tinham mensagens muito valiosas e importantes nas entrelinhas de suas falas e aulas. “Prestem atenção e vão perceber que isso não é brincadeira. Nós professores funcionamos como as bibliotecas, com os livros que lemos”. Ao ouvir isso Raquel encheu os olhos de lágrimas e apenas concordou balançando a cabeça.
Quatro anos depois, em 2004, o mundo já tinha superado essa crise. As coisas foram mudando rapidamente, como já era previsto. As crises também mudaram e, como sabemos hoje, tomaram novas formas e efeitos imprevisíveis, com essa que enfrentamos recentemente na saúde. O filme que mais fez sucesso naquele ano foi “Um dia depois de amanhã”, sobre uma catástrofe climática que congelou Nova York e todo o hemisfério Norte. O caos tomou conta da cidade e o pânico atingiu as pessoas sobre a incerteza sobre a sobrevivência. Não é difícil lembrar qual foi o refúgio dos protagonistas dessa ficção nem qual foi o fator que mais pesou nas escolhas e tomadas de decisões dos envolvidos. O incrível é que as soluções mais práticas e as lições de vidas mais influentes e marcantes não vieram somente dos livros e sim da experiência de um nova-yorquino que vivia nas ruas. Sobre a incerteza do futuro e o fim do estoque de alimentos que havia na biblioteca onde estavam abrigados, ele lembrou, dizendo para o seu cão e companheiro: “Vamos às latas de lixo. Nelas sempre têm o que comer”.
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AFONSO ENSINA A OUVIR
A rua estava deserta, apesar do horário, que era pouco antes das 9:00 da manhã. Afonso entra na escola que lhe havia feito um convite para uma palestra. Assunto delicado e que levou algum tempo para que finalmente fosse decidida a sua presença. Tudo trancado por dentro e, do lado de fora, não se vê ninguém, com acesso livre, de carro ou à pé. O visitante se aproxima do guichê da secretaria e aguarda ser atendido. A sala também está vazia. Ele vai até a porta principal e toca a campainha. Alguns minutos depois surge uma funcionária.
- Oi, sou o Professor Afonso. Vim fazer a palestra sobre prevenção do suicídio.
- Ah, sim. Graças à Deus!!! O nosso diretor já vai atender o senhor. Vou abrir a porta.
Afonso ultrapassa a porta principal e dá com um espaço enorme, que já conhecia de outras ocasiões. Um prédio com muitas salas, nos dois pisos, intermediado por uma rampa de acesso com dois lances. O diretor não demora e quando aparece logo convida Afonso para um café na cozinha da cantina e ali iniciam uma rápida conversa protocolar, logo substituída por uma troca mais descontraída de impressões. O diretor está muito preocupado. Tinha demorado para retornar o contato e justificou sua atitude: “As mortes não aconteceram na escola , mas não quero que aconteça uma coisa dessas aqui”. Afonso concordou e se mostrou compreensivo com esse temor. Antes de irem para o auditório, o diretor confidenciou algo muito importante para Afonso: “O meu pai se matou. Não suportou a depressão”. Pediu desculpa por não poder participar do encontro e agradeceu muito a presença do colega educador.
A sala escolhida para encontro ficava do outro lado do pátio. Foi conduzido pela coordenadora e ali foi apresentado a mais dois educadores encarregados de organizar o evento. Afonso havia solicitado que fossem escolhido um grupo especial de alunos: os mais fragilizados, que estavam sofrendo emocionalmente; os líderes colaboradores e com perfil mais humanitário; todos que tiveram contato mais próximo com os dois colegas falecidos e também, alguns pais. O encontro teria dois momentos diferentes. Uma rápida apresentação do expositor, da sua experiência pessoal com o tema, seu envolvimento e militância e um panorama sobre o suicídio e sua prevenção no mundo e no Brasil. Responderia perguntas no final dessa parte. Num segundo momento ele abriria a reunião para ouvir todos os presentes falando sobre seus sentimentos e suas impressões. O auditório estava cheio, tão cheio que muitos tiveram que sentar no chão. Afonso tem um jeito especial de apresentar-se: aproximava-se, sorrindo, olhando direta e rapidamente nos olhos de cada um dos presentes. É um convite de atenção e oferta de amizade. Isso sempre funciona e também diminui o barulho , que aos poucos é vencido pelo silêncio. Agradeceu pelo convite e solidarizou pela perda dos dois colegas. Lembrou que em muitos países tem acontecido com frequência a morte de estudantes. Em alguns deles é estabelecida uma pratica de luto, para que o fato não seja esquecido nem negligenciado. Luto é uma coisa séria, uma cura de feridas que não podem ficar abertas. Nesses casos, fazem cerimônias memoriais e não permitem que os lugares onde os alunos falecidos sejam ocupados. Permanecem assim até o final do ano letivo. Bem diferente da nossas realidade, marcada pela informalidade e uso múltiplo do espaço em vários períodos, impedindo essa interdição dos lugares. Mas acentuou que o luto pode e dever ser feito da forma que for possível.
Na apresentação de Afonso os jovens são os protagonistas das histórias. A menina de 13 anos que, na Londres dos anos 1940, havia se matado porque desconhecia a menstruação e também por temor dos pais; as estatísticas assustadoras do suicídio no mundo, que correspondia a cada ano ao desaparecimento de cinco cidades da região ( mais de 1 milhão de mortos), números que caíram para 850 mil após a adoção de Planos de Prevenção em muito países; e finalmente, (apesar da redução do casos mundo), os suicídios de crianças e jovens, que vinha aumentando a uma taxa de 8,5% das estatística mundiais. No Brasil, registrava-se um suicídio a casa 30 minutos. No mundo, um a cada 4 segundos. Não esqueceu de dizer que , durante a pandemia, um jovem da idade deles criou um serviço telefônico para apoiar mulheres que perderam o emprego e tiveram que ir morar nas ruas. Essa comunicação com os homens, por questões culturais, seria impossível. O jovem conseguiu reunir voluntários para conversar essas mulheres no período da noite, horário mais crítico de solidão e crises pessoais. O posto de conversação virtual foi denominado "Um lugar pra você", visando aliviar os sofrimentos dessas pessoas abandonadas à própria sorte. Um silêncio absoluto reinava no auditório. Paulo então passou a relatar o surgimento dos serviços de prevenção, que colocaram de lado o ideal do salvacionismo e adotaram uma postura humanista e realista, por serem em sua maioria voluntários, pessoa leigas e comuns que ofertam amizade. Até os médicos e os bombeiros já entendem que o salvacionismo não funciona e nunca funcionou, pois representa se colocar contra os suicidas quando deveriam ser apenas contra o suicídio. Essa aparente contradição, quando compreendida, muda radicalmente a abordagem e o tratamento que se deve ao assunto. Essa mudança de postura demorou alguns anos para ser descoberta e colocada em prática. Os dois serviços de prevenção mais influentes do mundo mudaram de postura e conseguiram dessa forma ampliar sua oferta de ajuda, de forma simples e humana. As pessoas ligam e são ouvidas por voluntários leigos e anônimos. Falar e ouvir de igual para igual, sem conselhos e discussões. Conversa aberta e compreensiva, sem julgamentos e preconceitos. O alívio de uma dor íntima pode tirar alguém da situação de angústia. Um simples desabafo cessa o sofrimento e permite que a pessoas se reorganize e resolva seus próprios problemas. Não fácil tomar essa atitude numa cultura de falantes e solucionadores de problemas alheios. Difícil abandonar essa postura de superioridade diante de alguém que está sozinho e fragilizado.
Afonso passa, então a ensinar como funciona a abordagem humanista de ajuda. Em poucos tópicos. Ele lembra de suas próprias experiências ao ter contato com pessoas em sofrimento psíquico - geralmente ansiedade, pânico e depressão - em lugares como as calçadas, os pontos de ônibus, as filas de bancos e supermercados As pessoas, percebendo sua disponibilidade, se aproximam e passam a falar de si, do que estão passando, das suas dificuldades. Em questão de apenas alguns minutos elas desabafam, sente-se aliviadas e se despedem cheias de gratidão após uma conversa de apenas alguns minutos. Coisas simples, que todos podem fazer. Por que não fazer na escola?
Ao concluir essa primeira parte e responder algumas dúvidas, Afonso silencia o grupo e pergunta:
-“E vocês, como estão? Gostaria de ouvir cada um falar de si, de como têm lidado com seus problemas e seus sofrimentos. Sei que não tem sido fácil. Mas é preciso falar. Falando a gente se alivia e aprende com a experiencia de que está ao nosso lado. Eu nunca consegui esquecer quando acordei de madrugada e vi minha mãe chorando ao saber que um tio nosso tinha da um tiro no ouvido. Ele era homossexual, numa época que quase ninguém aceitava pessoa nessa condição pessoal. Ele não tinha com quem falar”.
Durante a sua fala , Afonso lembra de várias histórias sobre a importância de ouvir. A mais curiosa foi a de uma senhora que foi atendida no Samaritanos em Londres, mas ninguém conseguia entender o que ela estava tentando dizer. Coisa muito complicada. Ela estava sendo atendida pelo Rev. Chad Varah. Só ele atendia. Era cansativo. Saiu da sala e foi convidada a esperar até que Chad atendesse todos e voltasse nela para tentar compreendê-la. Ela concordou esperar e nesse tempo contou a história para um voluntario de apoio, que lhe servia café. Contou duas vezes. No meio da terceira vez, deu um grito e saltou da cadeira, dizendo: "Olha, já sei o que está acontecendo comigo. Descobri agora conversando com você. Vou embora. Muito grata. Agradeça também ao padre, que tentou de todas as formas me compreender. Mas com você foi mais fácil.
Essa foi, talvez, a descoberta mais revolucionária do século no campo das relações humanas, a de que pessoas comuns podem ajudar outras pessoas em dificuldade, apenas ouvindo e lendo seus sentimentos: você está confusa, sente-se angustiada, está com receio de fracassar e ser criticada", etc. Foi assim que surgiu a prevenção pela escuta solidária. Nesse instante, Afonso começa a explicar as regras para falar e ouvir. Falar apenas o que sente. Ouvir outro sem interromper ou refutar. Apenas ouvir em silêncio, de forma compreensiva. Ouvir os sentimentos. E propôs que todos falassem. Ao terminar a fala, todos deveriam dizer: "Ponto". A reação foi imediata. Quase todos os alunos falaram. Alguns precisaram ser contidos, para não monopolizarem a fala. Outros apenas choraram e falaram pouco em forma de palavras, porém muito pelas emoções. Alguns surpreenderam os colegas falando de coisas e situações que ninguém imaginava. Respeito e sigilo foram lembrados como condição essencial desse tipo de experiência ajuda. Pessoal ou coletiva. Na medida que a reunião caminhava para o fim, muitos resolveram falar, reconhecendo que havia perdido uma oportunidade rara de se identificarem e reconhecerem. Afonso ressaltou que as reuniões deveriam ser programadas pelo menos uma vez a cada duas semanas, de forma permanente. Lembrou que os voluntario dos serviços de prevenção são pessoas comuns e que também aliviam seus sentimentos e emoções fazendo encontros de acolhimento e compreensão.
Hora de ir embora. Afonso agradece e se despede, sempre se colocando à disposição. Mas sabe que não retorna. Crê que a escola e os alunos sabem andar sozinhos, sabem como agir e conviver com seus problemas. É assim que funciona. É assim que a vida precisa ser vivida. Com solidariedade.
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LUCIANA QUEBRA O SILÊNCIO
- Professor, o senhor não está bem hoje...
Rafael iniciou a aula há mais de meia hora. Como de costume, entrou na sala um poucos antes da sete horas da manhã, andou entre os corredores de carteiras cumprimentando discretamente os alunos e fazendo comentários rápidos sobre o clima e o tempo. O dia está nublado e frio. Luciana, que senta na carteira próxima da porta, foi quem fez essa observação sobre o professor. Rafael teve reação imediata olhando para ela, mas apenas fez uma careta balançando a cabeça. E ficou em silêncio.
Luciana insistiu:
- Professor, o Senhor está triste. O Senhor não é assim.
Rafael olha rapidamente para todas as fileiras e percebe que todos, sem exceção, estão olhando para ele e aguardando uma resposta. Não está constrangido. Percebe que a insistência de Luciana é de preocupação. Nesse instante, alguns alunos, fingindo estar com sono, colocam suas cabeças entre as mãos deitando-as sobre as carteiras, mas continuam atentos para ouvir o que Rafael têm a dizer.
- Você está certa. Não estou bem. Tenho passado por alguns problemas...
- Ver alguém triste me deixa angustiada. Nem é curiosidade, me incomoda mesmo.
- Acredito.
- Logo que o senhor entrou percebi alguma coisa diferente no seu rosto. Achei que tinha brigado com alguém da escola.
- É uma briga comigo mesmo que vinha adiando há muito tempo e essa semana não deu mais para segurar.
- Chegou no seu limite...
- Por mim levaria mais algum tempo. Mas isso seria alimentar o sofrimento, meu e dos outros.
- Deve ser difícil tomar uma decisão assim.
- Pensei comigo, tenho essa mania de ficar adiando as coisas. E quando chega no limite não tem como recuar. Preciso parar de agir assim.
- Não percebi que estava assim no início da semana. Mas hoje o Senhor apareceu muito contrariado.
- Nem dormi essa noite. Devo estar péssimo de aparência.
- Teve medo e pensou em recuar?
- Não tive medo, mas tive que encarar a realidade. Já ´passei por isso outras vezes. Mas dói, sempre dói.
A classe parecia estar assistindo a uma cena de uma série do Netflix. Duas pessoas conversando e o restante aguardando o desfecho da história. Os rostos oscilavam entre o espanto e a piedade.
Depois de uma pequena pausa, Rafael retomou a conversa:
- Parece que me machuquei. Mas acho que vai passar. Até meio dia vou estar mais forte. Vamos trabalhar...
- É isso, professor, você vai ficar forte.
Rafael continua escrevendo um longo texto na lousa. Mas seu olhar continua vago. Os alunos olham para na sua direção tentando decifrar como ele lida com essa situação. Não parecem curiosos sobre o problema que o atormenta e sim o que ele faz para encarar essa situação. Eles perceberam que, em nenhum momento, o professor tentou disfarçar nem desviar a conversa que a colega teve com ele. Não escondeu seus sentimentos e admitiu que estava triste. Alguns poderiam interpretar esse gesto como uma fraqueza, mas a maioria sacou que, na verdade, ele teve muita coragem de falar. Luciana tinha insistido na conversa observando que ele estava triste e isso provocava nela e nos demais um sentimento de angústia por ver que alguém está sofrendo de forma silenciosa. Luciana quebrou o silêncio. Teve a coragem de se colocar no lugar dele. Foi por isso que ele disse acreditar nela e no que ela estava sentindo. Rafael poderia ter negado, disfarçado, mas preferiu falar de si. Não se sentiu ameaçado. Pelo contrário, ficou firme e se sentiu protegido naqueles poucos segundos de conversa. Um alívio que lhe deu forças para continuar trabalhando até o fim do período. Não foi uma fala apenas de otimismo verbal. Sentiu-se realmente mais forte. Luciana estava certa. Certíssima.
Mas quem é Luciana? Quem são esses alunos? Quem é Rafael?
Luciana cursa o segundo ano do ensino médio. Ela está numa classe com algumas peculiaridades que as outras não tem. Os alunos parecem ser mais maduros e as meninas são maioria absoluta. Os poucos meninos não se incomodam com isso. Ela conhece todos pelos nomes e informa os professores sobre o que acontece na classe e também com os próprio colegas quando algo incomum acontece. Hoje aconteceu algo incomum. Eles gostam de Luciana porque, agindo assim, muitos problemas são resolvidos na própria classe. Rafael é um professor que sempre surpreende os alunos com novidades e reações inesperadas. “Si pá”, ele prefere parar a aula e conversar sobre algo que não tem nada a ver com o conteúdo da disciplina que ele ensina. Hoje ele não fez isso. Mas permitiu que Luciana conversasse com ele, como se estivesse conversando com a sala inteira enquanto escrevia na lousa. E foi isso que aconteceu.
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17
SIDNEI CHOVEU NA HORTA
Sidinei acredita que não é um bom professor. Vive dizendo isso para os colegas de escola. Reclama que os alunos não o respeitam. Ensina uma matéria considerada difícil e isso, segundo ele, afasta ainda mais os alunos do seu convívio.
Sidnei começou a semana com o pé esquerdo. Seu carro estava todo arranhado, vandalismo feito por uma aluna de uma outra escola, que usou um prego para danificar o capô do automóvel. Estava muito triste e aborrecido.
O professor Fabiano, vice-diretor, percebeu que Sidnei não estava bem. Rosilda, a secretária, conhecia Sidnei há muito anos e ficou tão preocupada com ele que achou que poderia fazer uma besteira. “Eu já vi ele aborrecido, mas nunca tinha o visto assim tão triste”, comentando com Fabiano:
- Você podia conversar com ele. Ele gosta de você, te respeita.
- Ele é sempre respeitoso.
- E confia mais em você.
- Ainda está bem pra baixo. Já tive outra conversa com ele, sobre outro assunto. Parece que essa é uma boa oportunidade de retomar o que conversamos.
- Vê se consegue dar uma animada nele. Coitado.
Fabiano também estava preocupado com a segurança da escola. No fim de semana entraram na cozinha e roubaram mantimentos da merenda. Não estragaram nada. Apenas roubaram os alimentos da dispensa. A porta que tinha sido arrombada precisava de conserto rápido. Nesse mesmo dia a empresa que havia feito um reparo de vazamento tinha deixado um enorme buraco próximo da caixa d’água. Fabiano teve que fazer esse trabalho, para evitar um acidente. Sidnei foi ajudá-lo. Depois de conversar alguns minutos, enquanto puxavam a terra para fechar o buraco, foram cuidar da porta da dispensa. Sidnei fez o reparo sozinho, com material comprado pela escola. Foram juntos na loja de ferragens. Conversaram bastante sobre tudo o que estava acontecendo, com a escola e com eles. Fabiano fingia que também estava muito aborrecido e assim foi desvendando os problemas de Sidnei, que também desabafava, mas com mais emoção, pois não era fingimento.
- Eu tenho cara de palhaço. Não consigo me impor. Eles percebem que sou fraco...
Fabiano ficou estático com essa fala do amigo. Não sabia o que dizer. Nunca tinha visto alguém tão sem auto-estima. Sidnei aproveitou o momento para falar sobre os fracassos que vinham assombrando sua vida. Contou como tinha se tornado professor e o motivo pelo qual deixou a profissão que tinha escolhido antes e para qual tinha se preparado. Foi criado na área rural, num pequeno sítio arrendado pela família. Os pais eram agricultores. Sidnei fez o curso de técnico agrícola. Sabia lidar com a terra e aprendeu muitas coisas nesse curso. Nesse instante Sidnei mudou de expressão, como se tivesse lembrado de algo muito desagradável. Era foi mesmo: Lembrou que, logo depois de formado, recebeu uma encomenda de um serviço de jardinagem para uma empresa de transportes. Fez o projeto do jardim, orçou os custos das plantas e do material de alvenaria para os canteiros, tudo como havia aprendido. A direção da empresa achou melhor fazer algumas modificações e pediu que tudo fosse feito em vasos grandes. Era uma ideia bonita e bem ousada, muito mais cara. Perguntaram se teria algum problema e ele, com receio, disse que não. Nunca tinha feito daquele forma, sabia que era arriscado, mas não teve coragem de recusar a ideia. O resultado foi desastroso. Com exceção dos vasos, tudo foi perdido pelo ressecamento rápido e irreversível.
Ao lembrar dessa experiência de fracasso, Sidnei estava boicotando a si e uma ideia que vinha alimentando há algum tempo. Fabiano, naquele momento, intuiu essa reação de medo e desânimo e decidiu enfrentar também seus fantasmas de indecisão. Enquanto conversavam, os dois percorriam com os olhos o imenso terreno da escola e também a vizinhança de casas próximas. Foi então que Sidnei teve a coragem de falar da ideia de fazer uma horta com os alunos. “Eles não gostam das minhas aulas de matemática. Quando disse pra eles que tinha cursado a escola técnica de agronomia, comentaram que poderíamos fazer uma horta e também um pomar aqui na escola. Achei a ideia muito boa. Será que a direção deixa a gente fazer”? Fabiano ficou em silêncio por alguns instantes e logo em seguida perguntou sobre os custos desse projeto. Quis saber os detalhes. Sidnei explicou que as despesas eram baratas e que tínhamos mão-de-obra gratuita e voluntária. “Todos podem ajudar de alguma forma”.
“Podem sim”, concordou Fabiano. “Vou conversar com a direção. Acho que vão gostar. A escola precisa de um projeto desse para alavancar a Escola da Família, nos finais de semana. Está meio fraca. Se a direção concordar, você e os alunos fazem o trabalho de preparação durante alguns dias da semana, incluindo relatórios de cálculos e orçamentos, nos fins de semana, convidamos a comunidade para ajudar. As meninas da merenda também vão gostar da ideia. Uma delas mora aqui perto e pode ajudar".
Os olhos de Sidnei brilharam e ele se encheu de confiança e entusiasmo. A direção achou a ideia ótima e resolveu contribuir com a compra de fertilizante e outros produtos para preparação do solo. A terra era muito ácida e precisava de correções químicas, explicava Sidnei com ares de especialista. Era outra pessoa. Na semana seguinte seu rosto mudou e não se via mais nenhum vestígio de medo e lembranças ruins.
No mês seguinte também já se via uma nova paisagem naquela parte do terreno para o qual os dois olhavam durante as primeiras conversas. Ali se via vários canteiros, cercados, adubados e bem regados. Neles brotaram e cresceram cebolinha e salsa, manjericão, couve folha e flor, hortelã, alface, agrião, rúcula, alho, tudo muito bem cuidado e com abundância. Ao redor dos canteiros, Sidnei plantou abóbora e abobrinha verde, que logo se esparramou. Todos ficaram encantados e muito impressionados com o resultado. Parecia um milagre. Era realmente um milagre. O pessoal da cozinha estava realizado com a diversidade de temperos que podiam usar no cardápio. Nos finais dos dois períodos das aulas, os alunos, visivelmente felizes, levavam pequenas quantidades desses produtos para casa. Muitos pais passaram a trazer e buscar os filhos só para verem a horta que eles tinham ajudado a plantar e cuidar. Sidnei não falava muito sobre essa movimentação. Nem deixava transparecer o que se passava dentro dele. Mas o rosto dizia. Estava feliz. Estava curado. Fabiano também conseguiu superar alguns traumas de realização que guardava no coração.
“E a matemática”? perguntava a diretora.
E Fabiano respondia:
“ A matemática continua ruim e os alunos não reclamam tanto. Mas a horta tá boa demais heim”!!!
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18
FABIANO ENSINA A NÃO ENGOLIR O CHORO
Fabiano recebeu um convite especial para falar sobre saúde mental e prevenção do suicídio numa escola particular. Convite feito por um ex-aluno da faculdade e que sabia da sua vivência nesse assunto. Perguntou a faixa de idade dos jovens teve a informação que eram estudantes do ensino fundamental, dos sextos e nonos anos, portanto, entre 11 e 14 anos de idade. Conhecia a escola pelo nome, pois tinha três colegas que lecionavam ali há alguns anos.
Depois da recepção e apresentações foi conduzido até a quadra esportiva onde os professores aguardava as últimas salas se acomodarem para iniciar a palestra. O diretor agradeceu a presença de Fabiano e desejou que o encontro com os alunos fosse bastante proveitoso. Os alunos estavam todos sentados no piso da quadra. Alguns acenavam para ele cumprimentando-o de forma muito fraterna e ele rapidamente acenava de volta. Um caso raro e curioso de empatia.
Fabiano saudou a todos, de forma hierárquica, e iniciou exposição falando, como sempre, da preocupação com a saúde mental das pessoas num mundo que desvaloriza esse aspecto humano. Repetiu a comparação que sempre faz nessa ocasiões sobre as vivências humanas básicas: pensamento, ação e sentimento demonstrando como as emoções e sentimento são reprimidos e desvalorizados.
O palestrante fez uma rápida pausa e varreu os recinto com os olhos buscando sintonia visual com todos que ali estavam.
Lembrou-se que, diante daquela plateia não poderia usar conceitos complexos e perguntou se alguém já tinha ouvido uma conhecida ordem vinda dos adultos: “Engula o choro”. Todos, incluindo os adultos presentes, ergueram os braços para dizerem “sim”, uns sorrindo, outros tristes e outros ainda com ares de indignação.
Perguntou em seguida o que significava passar por isso, ter que engolir o choro numa situação de sofrimento.
“Vocês todos, cada um da sua forma , entenderam bem como isso repercute dentro de nós. Toda pergunta merece uma resposta. Eu digo que para mim isso nunca foi bom. Obedecia, mas nunca aceitei isso como uma coisa normal e que me ajudasse. As pessoas aprendem que isso nos torna mais fortes, mas isso nem sempre é verdade. Engolir o choro significa que é proibido e inútil chorar. Será que a natureza está errada? As lágrimas e soluços de quem chora não significam nada além de fracasso e fraqueza? Quando choramos e depois nos sentimos aliviados por algum tempo das dores que estamos sentindo é uma experiência inútil e sem cabimento? Choro é sempre uma birra ou uma manha para fazer chantagem? Existe choro sem dor"?
Para evidenciar a gravidade desse assunto, Fabiano alertou que os 8,5% de 850 mil pessoas de pessoas que se matam todos os anos eram jovens como eles e que provavelmente tiveram que engolir seus choros e ou choraram escondidos antes de tomarem essa decisão desastrosa. E provocou:
"Quem aqui quer falar sobre a liberdade de chorar e a imposição de engolir o choro"?
Muitas mãos acenaram na plateia dos pequenos. Os adultos se recusaram a se manifestar. Fabiano propôs então uma postura diferente:
“Quem levantou a mão e está disposto a falar e certamente tem uma opinião formada sobre esse assunto, que aliás costuma se proibido, por ser inconveniente. Nossa ideia não é pensar nem debater. Isso já é feito nas aulas diárias. A ideia nesse momento é falar o que sentimos e não o que pensamos. Nosso objetivo não é discutir, concordar ou discordar e sim valorizar o relacionamento humano: a aproximação, a aceitação, a compreensão e o respeito”.
Os braços e mãos continuam avisando que gostariam de falar sobre sentimentos.
Fabiano foi chamando os depoentes para falarem ao seu lado ou, se quisessem, poderia fazer de onde estavam. Na medida que falavam, os jovens criaram uma atmosfera de liberdade emocional, sem radicalismo e exageros. Tudo muito espontâneo e respeitoso. Os que não quiseram falar, acolhiam ou eram acolhidos pelos colegas, que seguravam as mãos dos colegas ou simplesmente se abraçavam. Entre os adultos havia uma certa inquietação. A maioria estava constrangida e envergonhada. O diretor e alguns professores se sentiram no direito de chorar e foram solidários com os chorões. Estavam claramente surpresos e comovidos. Fabiano encerrou sua apresentação falando sobre a importância da amizade como gesto natural de amor e proteção humana.
Na saída, quando se dirigia ao carro do ex-aluno que o levara até a escola, Fabiano encontrou com algumas mães, que conversavam animadamente. Todas acenaram despedindo-se, algumas com sorriso de aprovação e agradecimento e outras balançando a cabeça, com uma expressão de contrariedade amigável, porém muito preocupadas com o que ouviram. Seu ex- aluno sorriu e perguntou laconicamente: “Viu, professor”?
- Sim. Ninguém pode dar aquilo não tem, nem ensinar o que não aprendeu.
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19
CLÁUDIO DESVENDA A MESA E O LABIRINTO
Cláudio entra na sala de aula logo após o intervalo das 9:30. O barulho e a inquietação é muito normal até que todos se acomodem. Mas, por incrível que pareça, nessa sala do 1D reina um clima de silêncio e tranquilidade. Uns cochichos aqui e ali, mas nada que incomode. Pelo e contrário, o professor fica curioso com o conteúdo dos sussurros que vem do fundo da sala. Ali, do lado oposto às janelas e cuja parede dá para o pátio coberto, tem um pequeno grupo formando um círculo e no centro tem uma cadeira vazia. Nela tem um copo de plástico virado para baixo. Num primeiro momento o grupo fecha o circulo dando as mãos. Claudio já tinha apagado a lousa e agora bate na borda da lixeira um grande apagador revestido com feltro vermelho. É uma classe tranquila, bem diferente das demais. Por isso não estranhou a ausência de barulho nem os cochichos Alguns alunos estão em silêncio, aparentando desinteresse no que acontece no fundão. Curioso, Claudio vai até o fundo da sala e se aproxima do grupo. Fica em silêncio e observa o rito que já tinha sido iniciado antes da sua entrada na sala. As mãos já estavam soltas e dois alunos impõem as suas, com os dedos bem abertos, próximas e sobre o copo. Eles estão com os olhos fechados e bem concentrados no objetivo de fazer o copo se mover de um lado para o outro. Os demais permanecem com as mãos sobre as pernas, com as palmas viradas para cima dando a ideia de captação de energias pelas pontas do dedos. Ninguém se incomoda com a presença próxima do professor. Sabem que ele não aprova, mas também não desaprova a ponto de proibir essa prática. Seus olhares são sempre de curiosidade e vigilância. Em reuniões anteriores a essa, Claudio alertou para o perigo dessa experiência. Eles se lembram da explicação dada por Cláudio, mas parece que ninguém liga para os riscos apontados por ele. Que perigo poderia ter uma brincadeira sem nenhuma maldade como aquela? Estavam apenas em busca de alguns sinais desse conhecido fenômeno entre os jovens. Claudio vai até sua mesa, confere o diário daquela turma, pega duas peças de giz e inicia seu trabalho com um resumo da aula já programada uma semana antes, conforme verificou em suas anotações. Os demais alunos o acompanham passando o resumo para seus cadernos. Na medida que escreve na lousa, vai conferindo o movimento silencioso fixando os olhos no copo sobre a cadeira. Para sobrar tempo para sua observação, Claudio escreve mais rápido. No meio da lousa ele traça um grande círculo e no centro escreve IDEOLOGIAS. Em seguida, a partir do que foi escrito ao centro, lança setas, em várias direções, que ultrapassam a margem do círculo e nelas escreve cada uma das ideias e movimentos que marcaram a vida cotidiana do século XIX. Aponta primeiramente os grandes temas políticos das classes e categorias sociais da época e em seguida as sucessivas ideias e projetos consequentes dessas inquietações humanas daquele longo período de mudanças. Vai tirando da sua memória diversos grupos filosóficos e artísticos considerados menores, mas que tiveram presença marcante como culto e modismo. Ao direcionar seus olhos para o círculo do corpo, lembrou das "tables tournantes” que agitavam Paris na segunda metade do século. As mesas não somente levitam sob as mãos dos magnetizadores, mas também respondiam perguntas oraculares, tentando desvendar os mistérios do Além. Foi exatamente nesse instante que Claudio ouviu um grito vindo do fundo da sala e o barulho de algumas cadeiras se arrastando tornando maior o círculo antes bem inibido. O copo havia se movido, provocando medo e mais curiosidade. Sucederam as perguntas sobre diversas coisas, solicitando que o copo se movesse em caso de um “sim” e permanecesse estático se a resposta fosse uma negativa. Isso aumentou o alvoroço no pequeno grupo que deu origem à brincadeira e despertou o interesse naqueles que estavam distantes, todos querendo saber detalhes do que foi questionado ao Invisível. É também nesse instante que Claudio aponta na última seta, em francês, a palavra “espiritisme”. Recorda o célebre encontro do Professor Rivail com seu amigo Carlotti, conhecido magnetizador, em 1856, enquanto caminhavam pelo “Boulevard des Italiens”. Os dois voltariam se ver numa reunião noturna na casa de Madame Plainemaison, cujos frequentadores seletos só compareciam mediante convite da organizadora das famosas reuniões de mesa parisienses.
Tomando por um impulso indescritível, Claudio novamente se aproxima do círculo de alunos e desfecha na direção do copo uma, pergunta desafiadora:
“ Você me conhece” ? “Sabe quem sou”?
Para sua surpresa, e de todos que ali estavam próximos, o copo se moveu rapidamente para duas direções diferentes. Os dois participantes (duas meninas) que impunham as mãos sobre o copo permaneciam firmes e de olhos fechados.
“Eu sou do Bem”? perguntou Claudio.
A resposta veio de forma imediata com o copo se arrastando para centro da cadeira. Em seguida, fez sua última pergunta, que foi a tentativa de identificar a inteligência e o caráter da força que ali se manifestava:
“E você, também é do Bem”?
O copo foi tombado, movendo lentamente, como numa dança, de um lado para o outro, até ser finalmente lançado ao chão, indicando que, para aquela pergunta, naquele momento, não havia resposta. Claudio então se dirige para as duas meninas, chamando-as por nomes que elas nunca tinham ouvido falar: Julie e Caroline. E, no entanto, mesmo desconhecendo tais nomes, elas obedeceram a ordem dada por Claudio para que despertassem daquele transe e copiassem o texto que estava na lousa. Para a maioria dos que estavam na sala e próximos do círculo, as perguntas e a ordem final de Claudio foi apenas um “estraga prazer”. Para “Julie” e “Caroline”, aquela foi uma experiência que estava apenas começando e que teria outros desdobramentos além daquela simples brincadeira.
No dia seguinte Claudio acordou na terceira hora da manhã. Tinha dormido no sofá enquanto ouvia música. Tivera um sono profundo. Ao despertar ainda guardava na memória as cenas de uma visita que fizera a um lugar muito estranho, cercado por um bambuzal verde, cercado também por uma cerca alta de arame farpado. De longe avistou “Julie” e “Caroline” acompanhadas de alguns colegas da escola, mas que não eram da classe delas. Todos riam descontroladamente como se estivessem sob efeito de alucinógenos. Os colegas entraram no bambuzal utilizando uma passagem em forma de labirinto. “Julie” e “Caroline” viram Claudio se aproximar da entrada e recuaram imediatamente. Parados em frente ao labirinto, os três formam surpreendidos por uma música percussiva, com ritmo e som que nunca tinham ouvido. Era uma música monótona e repetitiva, animada por batidas em sinos de som agudo. Apurando mais a percepção dos ouvidos perceberam que a letra da música tinha gírias desconhecidas por eles, porém com forte conotação sexual e pornográfica. Foi só isso que conseguiu lembrar do sonho. Não revelou nada para as duas alunas.
Tudo isso aconteceu no final de 1999.
Dez anos depois, durante uma viagem ao Rio, Claudio e um amigo se dirigiam de taxi ao morro Santa Tereza. Na subida, o motorista avisou que estava vindo um bonde na deles. Pensaram que se tratava dos antigos bondes históricos do bairro. O motorista alertou para que não encarassem os passageiros. Era um carro esportivo vermelho, e os passageiros, todos muito jovens, exibindo fuzis, pistolas e metralhadoras. Claudio não se impressionou com as armas e sim com a música que estava sendo ouvida dentro do “bonde” vermelho. Era a mesma que tinha ouvido com “Julie “ e Caroline” na entrada do labirinto do Bambuzal.
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20
WANDERLEY E A TEMPESTADE
Wanderley dorme entre às 23 e 4 horas da manhã. Nesse período de sono seu corpo descansa e quando acorda está fisicamente revigorado. Nenhuma luz da sua casa está acesa. Todas as janelas estão fechadas. A temperatura no início do mês de agosto ainda está baixa, sobretudo na madrugada. A claridade dos postes de luz da rua ilumina todos os cômodos, mesmo os que estão com as cortinas também fechadas. Ele levanta, vai banheiro e volta para a cama. Ali, bem agasalhado, novamente pega no sono. Logo se vê num lugar agitado da cidade vizinha, a qual se vinculou a antigos moradores pesquisando a história da região. Está num lugar distante do principal centro num edifício, onde parece estar acontecendo um evento político. Muitas pessoas ali se movimentam preocupadas com a organização e também em mostrarem seus projetos e talentos. Querem ser vistos e têm em mente um alvo específico. Trata-se uma figura que se destaca entre eles, em todos os aspectos. Sua estatura não é comum e passa folgadamente dos dois metros. Se movimenta o tempo todo percorrendo os recintos, sendo seguido efusivamente pelos participantes do encontro, sempre atentos às suas reações e solicitações. Sua aparência também não é comum. Wanderley vê nele uma mistura de elementos humanos, míticos e de um robô futurista. Parece que não têm uma das pernas, porém isso só se torna perceptível quando ele caminha. Lembra quelas figuras lendárias nórdicas, com cabelos loiros e compridos. Se exibe com trajes de combate. É uma figura impressionante que exala poder e carisma. Dá atenção à todos que o abordam, ouve suas ideias e observações e rapidamente se desloca para conversar com outros grupos. Quase todos o enxergam como um gigante humano. É nesse momento que ele encontra Wanderley, que também está impressionado com o lugar e com a sua figura. Ambos se olham durante algum tempo e Wanderley diz a ele algumas palavras de reconhecimento. Ele ri alegremente e faz perguntas à Wanderley demonstrando curiosidade e vivo interesse em ouvi-lo. Conversam por alguns instantes mantendo os participantes bem afastados. Muitos tentam se aproximar e não conseguem. Para Wanderley o cavaleiro mítico é só uma figuração alegórica. Na verdade sua estatura é comum e tudo não passa de uma encenação. Esse é o motivos dos riso entre os dois. Mas Wandeley respeita a intenção do anfitrião. Se despedem com acenos e o grande cavaleiro continua rindo, demonstrando muita satisfação com a aquela rápida conversa.
Wanderley acorda. Levanta e vai até a janela para dar uma olhada na rua. Para evitar a friagem, fecha a janela - que havia esquecido aberta - e senta-se no sofá onde tenta lembrar-se das cenas e diálogos que tivera durante o sono. Em poucos minutos seu corpo entorpece convidando-o a continuar o sono em sua cama.
Wanderley agora se vê num edifício no centro da cidade onde mora. Muitas pessoas estranhas se movimentam dentro desse prédio enorme. Parecem estar perdidas. Ele também se sente perdido, mas não se incomoda com isso. Percebe que alguma mudança vai atingir a si e todas as pessoas que ali estão, mas que se encontram em agonia e se sentindo inseguras e impotentes. “Questão de tempo”, pensa ele. Continua sua busca pelo prédio e ingressa numa parte isolada, com aparência de abandono. Ao abrir uma das muitas portas, se depara com uma cena surpreendente. A sala está inundada. Uma quantidade enorme de água escorre pelas paredes indicando que uma chuva muito forte atingiu as partes abertas do teto. Pela janelas ele observa que foi uma tempestade repentina, pois o céu escureceu, embora ainda permanecesse com alguns tons luminosos de cor-de-rosa. A sensação de estar perdido e sem rumo volta ao seu coração em forma de angústia. Pensa em recuar, mas não consegue. É quando percebe que não está sozinho. Bem no centro da sala ele vê um jovem senhor. Está sentado apoiando a cabeça com uma das mãos no rosto e com o cotovelo sobre a prancheta de uma cadeira escolar, do tipo universitária. O jovem senhor está triste e introspectivo. Traja uma camisa xadrez de mangas curtas, calça blue-jeans e sapatos sem meias. Tem a impressão de que o conhece, porém não recorda exatamente de quem se trata.
Ao acordar novamente, Wandeley observa que o sol já tinha se espalhado pelas paredes dos prédios vizinhos e pelas ruas. Vê que tudo está seco e claro. Sente-se aliviado. Lembra da figura quase mítica com quem conversou e em sua mente logo vem a lembrança de que no ano vindouro vão ter eleições renovadoras nas cidades. Lembra também do salão inundado e do jovem senhor triste sentado numa cadeira universitária e que não percebeu sua presença. Alguns segundos depois, repassando as cenas gravadas na memória, diz pra si mesmo: “É o Waldir, o Waldir...”
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21
RICARDO REENCONTRA ROSALINDA
Ricardo corre para o ponto de ônibus para não perder a condução que se aproxima e que pode levá-lo de volta para casa. Está em Praia Grande. Uma hora antes estava numa escola pública da cidade realizando um encontro com professores, pais e alunos. Na saída, já próximo ao portão, ouve a buzina de um carro ser acionada duas vezes em tom de saudação. Além da buzina, ele ouve seu nome ser pronunciado pelo motorista, que é uma antiga moradora do lugar, de família paulistana há muito tempo radica na cidade. Sempre que sonha com Praia Grande, Ricardo se vê no mesmo lugar, que é a divisa com São Vicente, próxima ao morro Xixová, na antiga avenida Tupiniquins. Ele se aproxima de um ônibus azul e, pela cor, sabe que vai para Santos. Não consegue embarcar. Ao tentar foi imediatamente surpreendido por uma mudança de cenário temporal. O ônibus azul não é mais o mesmo. Agora ele vê um exemplar bem antigo, dos anos 1950. O lugar mudou de cor e as pessoas que estavam no ponto não mais as mesmas. São agora moradores antigos, com aparência rústica, trajando roupas muito parecidas. O ônibus parte e Ricardo percebe que ao redor predomina um matagal cortado por ruas de terra quase sem nenhuma habitação. Em seguida, diante do ponto, estaciona um caminhão de carga, somente com a cabine do motorista, revestida de chapas de ferro. O motorista desce rapidamente e se dirige ao ponto. É uma mulher alta, de pele morena, cabelos negros bem penteados, logo reconhecida por algumas pessoas. Ela está vestida com um macacão de trabalho pesado, com mangas compridas e já bem desgastado pelo uso diário. Calça botas de couros no mesmo estado de conservação. Algumas pessoas vão na direção dela para cumprimentá-la, dando a entender que era alguém muito querida pelos operários. Apesar da reverência, ela se mantém séria enquanto conversa com eles. Ricardo lembra que já tinha visto essa cena numa fotografia antiga da Cidade Ocian, ainda em obras, na qual aparecem os operários em frente a um caminhão antigo. São todos homens e estão vestidos com macacões já bem desgastados. Um desses operários se tornaria prefeito da cidade após a emancipação, quando teve a oportunidade de ampliar sua experiência em obras de infraestrutura. Ricardo não conseguiu identificar a mulher que conversava com as pessoas que estavam no ponto, porém percebe que o assunto da conversa é política. Ela pedindo votos para uma eleição que vai acontecer nos próximos dias.
Ricardo não precisa mais de condução para trazê-lo de volta a São Vicente. Ele acorda do sono que teve pela manhã e fica pensando no motivo dessa experiência e logo vem a explicação. Antes de dormir tinha visto um mapa antigo da Companhia de Melhoramentos, datado de 1950. O mapa diz que a empresa de loteamento está em liquidação e mostra a região sul do antigo bairro continental de São Vicente que se estendia até Itanhaém. Interessante que o mapa não cita a cidade de Mongaguá, embora os acidentes geográficos sejam todos dessa localidade. A rua São Paulo, artéria principal dessa cidade, já aparece rodeada por inúmeros lotes retangulares indicando que esses lotes compridos serão retalhados e vendidos em pequenos terrenos de uso residencial e veranista. Ricardo ainda está impressionado com a cena memorial e muito mais com a figura da mulher que dirigia o caminhão. Quem seria? Ainda vive? Tenta desvendar um mistério que ficou perdido no tempo há mais de 70 anos. Lembrou que o mapa poderia dar essas respostas. Como, se os dados nele contidos são tão poucos? O original está num arquivo público na Capital. A cópia que viu foi publicada na página digital desse órgão e indica o autor do seu desenho técnico. Ricardo lembra que algumas pessoas conseguem penetrar na dimensão etérica dos lugares e objetos desvendando o tempo passado nos seus entornos, como se fosse uma gravação magnética e digital. É um dispositivo natural antigo usado pelos médiuns dotados dessa habilidade sensitiva. A Scothland Yard tinha o hábito de utilizar esse recurso psíquico para desvendar crimes de difícil solução. É uma habilidade rara denominada “psicometria” na qual o médium acessa a dimensão etérea dos lugares e objetos e enxerga as cenas que ali ocorreram. A maior dificuldade é identificar o rosto das pessoas envolvidas, pois nem sempre se mostram com clareza. Não se sabe se é um bloqueio natural ou um impedimento de força superiores que controlam os destinos dos envolvidos. Os hindus iniciados em ciências ocultas chamam esse fenômeno de Akasa (Éter) e Karma (ligação interexistencial). Complicado, mas é um recurso psíquico natural e obviamente conhecido, apesar de ser raro. Quem sabe mostrando o mapa a um médium psicômetro, com a descrição mental, as cenas e pessoas, vistas ou sonhadas, possam ser identificadas. É trabalhoso, porém não custa tentar. Ricardo conhece alguém que tem essa habilidade. Lembrou que essa pessoa conseguiu identificar a origem de uma pedra encontrada no fundo oceano pela tripulação científica do navio Professor Besnard, quando das suas incursões na Antártida nos anos 1980. A pedra, segundo relato dessa médium, era de uma vasta área territorial afundada há muitos séculos por um fenômeno telúrico. “É da Atlântida”, disse ela surpreendendo a todos. Ela desconhecia de onde viera a pedra trazida por um dos tripulantes. Vendo o mapa, poderia ocorrer uma revelação parecida. Dito e feito. Ricardo foi em busca da sensitiva e conseguiu ter com ela um contato muito produtivo. Embora já bem idosa, a médium não recusou atendê-lo. Foi direto ao ponto. Disse se tratar de uma funcionária de uma empresa de transporte máquinas pesadas que prestava serviços na urbanização de um antigo bairro de Praia Grande. Ela fazia o serviço do pai, que nesse período estava muito enfermo e impedido de trabalhar. Ela absorveu todas as instruções para lidar com os chefes e principalmente com os operários. Por isso decidiu usar o macacão de serviço, que era do seu pai. Rosalinda era seu nome.
Ricardo saiu muito feliz da casa da sensitiva. Não esperava que essa ajuda pudesse ser tão precisa e real. Ela só não disse se Rosalinda ainda estava vida e onde residia. Isso só seria possível saber se encontrasse alguém que a conhecia. Lembrou imediatamente da pessoa que buzinou para ele quando saía da escola durante o sonho. Foi até o Museu da Cidade, no Palácio das Artes, onde essa pessoa trabalhava, no setor dos arquivos. Não disse nada a ela sobre o sonho. Mas ela ficou desconfiada, já que conhecia esse lado misterioso de Ricardo. Sabia que ela buscava algo, como sempre intrigante, e decidiu ajudá-lo. “ Esse mapa que você procura não está aqui, mas temos uma cópia lá no salão de exposições”. O mapa estava exposto numa redoma de vidro, como parte de uma exposição de época. Ricardo sabia que a simples observação do mapa não ajudaria em nada, pois os dados ele já conhecia. Mesmo assim acompanhou a amiga, para não decepcioná-la, pois tinha sido muito prestativa. Alguns minutos de conversa foi o suficiente para desvendar o mistério. No momento extado no qual Ricardo perguntava para a amiga se ela conheceu alguém que se chamava Rosalinda, uma voz forte vinda de trás deles respondeu: “Dona Rosalinda era filha do agrimensor da OCIAN. Fazia os serviço do pai , que estava muito doente. Era engraçada, quero dizer, era muito séria, mas ficava muito engraçada usando o macacão e a botas do pai. A gente segurava para não rir. Ela era muito boa e muito brava”. E ficaram os três conversando sobre as coisas daquela época. Ricardo anotava tudo mentalmente. O informante surgido casualmente era um senhor de uns 90 anos de idade. Não aparentava ter essa idade. A voz forte e a disposição física confirmavam essa impressão. Morava em São Paulo, na Vila Maria, e sempre visitava Praia Grande para matar a saudade de quando trabalhava como eletricista na mesma empresa. E finalizou a conversa rindo e despedindo-se: “Rosalinda... Era linda e brava...”
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22
JOSÉ RENATO FOI NO CÉU
José Renato entra num grande recinto cuja luz ofusca os olhos da maioria dos presentes. É um grande auditório onde estão acomodadas centenas de pessoas que, apesar de estarem alegres e cheias de curiosidade e expectativa, ainda se mostram entranhas ao ambiente incomum para eles. Foram trazidas ali durante o sono físico. Em alguns grupos os convidados portam roupas de dormir, o que desperta risos em outros que trajam roupas normais. Mas ninguém se estranha. Todos acham engraçado. Para descontrair, alguns fingem estar com chupetas e mamadeiras, que descobriram que podem materializar com a força do pensamento. Foram escolhidos pelas colônias de origem e trazidos por tutores existenciais. Fazem parte de uma coletividade que divulgam na Terra assuntos ainda desconhecidos no planeta e têm como tarefa voluntária difundir essas informações da forma que acharem mais conveniente ou por sugestão dos seus mentores. São chamados nessas esferas de "precursores", pessoas de todas as áreas profissionais, porém muito ligadas às artes e estudos filosófico educativos. São vocacionados para descobrirem e difundirem mudanças em diversos setores. Todas as informações que aprendem nesses contatos são gradualmente compartilhadas em diversos formatos e expressões. Renato, por exemplo, vai transformar a experiência de hoje em palestras para seus companheiros de ideal religioso. Ele não estranha mais esses eventos. Porém, algumas vezes esquece os avisos sugeridos por seus mentores e é pego de surpresa, ou seja, de pijama. Só muda sua aparência quando percebe onde está e também porque já tem habilidade de criar sua roupagem mental.
O auditório é tomado por uma música suave e todos vão silenciando suas falas e inquietações. Uma voz feminina, também suave, saúda à todos e agradece a presença dos convidados. Faz algumas considerações sobre o tema que será abordado citando um trecho do Novo Testamento lembrando que estão no Reino dos Céus porque comungam os mesmos valores, embora muitos ali tenham concepções diferentes de uma mesma verdade, que é a máxima “Na casa de Meu Pai há muitas moradas”. A voz se cala por alguns segundos e pede que cada um agradeça a oportunidade desse encontro dirigindo-se à força Maior na qual acreditam e servem em favor dos seus semelhantes. Em seguida, inicia a exibição de um audiovisual sobre as colônias da crosta terrestre explicando suas características humanas, suas estruturas e histórico de suas idealizações e principalmente as coletividades culturais que abrigam. A narrativa lembra que as colônias funcionam pelo mesmo princípio universal dos reinos da natureza e dos seus seres em evolução. Confraternizam por intercâmbio permanente, assim como acontece entre os planetas e suas diferentes categorias de mundos. Recordar essas informações não causam estranheza nos presentes, porém o encantamento é geral, pelo tratamento visual e didático exibidos com imagens encantadoras, cheia de detalhes ainda desconhecidos no mundo carnal. Muitos que ali estão já elaboram estratégia de como vão difundir esse conhecimento imaginando a síntese e composição dos conteúdos. Se lembrarão do que estão vendo quando despertarem em seus leitos? Uns mais outros menos, dependendo grau e habilidade de memorização. Mas todos, de uma forma ou de outra, terão essa narrativa em sua memória mais profunda, disponibilizada segundo seus propósitos de revelação. Na oração de abertura a instrutora invocou a parábola do semeador para selar o compromisso de difusão da verdade que ali seria compartilha com os presentes. Mas grande revelação do encontro foi feita por um habitante de uma dimensão mais sutil do que aquela na qual todos estavam. O instrutor que agora fala e ilustra com cenas articuladas explica que a Terra está se tornando gradualmente um mundo feliz. Antes precisa conhecer a regeneração, que é a purificação coletiva e individual dos seus habitantes, obtidas pelas provas em curso. Ainda distantes da perfeição, porém muito próximos dos embates diários que marcam esse esforço moral, os habitantes da Terra irão assistir nos próximos oito ou nove séculos o desaparecimento dos umbrais profundos e a materialização gradual das colônias da crosta, as quais serão vistas a olho nu, flutuando entre as nuvens e nebulosas da abóbada celeste. Esse é um espetáculo muito comum em planetas já regenerados e felizes e cuja realidade mais próxima que temos como analogia é quando nos deparamos com o espetáculo dos arco-íris que aparecem casualmente nos céus, estimulados por fenômenos pluviais. Como eles, em multicores, surgirão nos céus outras montanhas, picos , serras, oceanos, gigantescas cidades e edificações, convidando-nos diariamente a portar as túnicas nupciais luminosas e ao banquete celeste da eternidade. Ao invés de uivos e ranger de dentes, ouviremos em nosso entorno repetidas preces de gratidão e clamores pelos que ainda sofrem em mundo expiatórios com o nosso. Não raro, estaremos lá também ofertando a mão e pão espiritual que hoje recebemos dos irmãos maiores.
Ao ouvir essa narrativa reveladora e cheia de esperanças, todos os presentes, sem exceção, se renderam às lágrimas recordando o quanto ainda teriam que caminhar para que tudo aquilo que estava sendo mostrado fosse alcançado definitivamente. A instrutora lembrou que as lágrimas ali derramadas cairiam com orvalho renovador sobre os lares de cada um deles e também no entorno dos seus abrigos terrestres. “Quando acordarem em seus leitos, muito se sentirão tristes e apagados, mas não esqueçam que isso é apenas uma impressão, fruto do choque entre a plenitude na qual estamos mergulhados agora com a escuridão terrestre que ainda nos causa dor, mas nos convida a sermos o sal de terra e a luz do mundo. Vão todos com Deus e com as bençãos do nosso Divino Mestre”.
José Renato desperta dividido entre a melancolia e a alegria que até pouco minutos ocupava seu coração. Porém e reage e recorda algumas cenas que vivenciou durante o sono. Algumas falas ainda ecoam nos seus ouvidos, bem como as imagens, embora vagas, dos mundos felizes para as quais caminhamos num futuro ainda distante, mas que já experimentamos nas colônias próximas de onde viemos e frequentamos durante o sono. Tudo isso serve para treinar a felicidade. José Renato senta-se em sua cama e sente a necessidade de orar. Vem em sua mente algumas bem-aventuranças do Sermão da Montanha. Não está mais dividido. Está alegre e disposto. E já faz planos de como vai relatar essa Boa Nova aos que não tiveram essa oportunidade de ver e experimentar a Luz.
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23
FERNANDO ENCONTRA OS SOBREVIVENTES
Fernando recebe pelo whatzapp o último alerta de chegada da sua carona. Se posiciona no local combinado e logo embarca num carro que sempre está cheio de caronistas. Estão no carro um casal de educadores e dois jovens. Eles vão na direção Jockey Clube, do outro lado da cidade, onde vai acontecer um encontro. O caronista que entrou por último no carro é o convidado especial, autor do livro que foi estudado e discutido nas reuniões anteriores. Hoje é o encerramento, quando os participantes vão conhecer o escritor para tirar dúvidas sobre os personagens e situações que encontraram na leitura. Já aconteceram outros encontros como esse com outras turmas, porém são sempre diferentes. Contam com uma facilitadora e uma psicóloga voluntária. Dessa vez prepararam o ambiente de forma um pouco diferente. Elaboraram um mapa com as situações e dúvidas encontradas na leitura. Os participantes deram as informações e alguns deles ajudaram na construção do painel, que foi colocado na parede, de forma bem visível. Produção e cuidados à altura de um programa de TV.
O organizador do grupo dá mais duas viagens para trazer os últimos jovens participantes.
Às 20 horas têm início a reunião. Primeiro, as apresentações e reconhecimentos. Os participantes, olham para o autor do livro que leram e, pelas expressões faciais, revelam que tipo de dúvidas têm. Uns estão sorrindo e conversando, outros introspectivos e observadores, mas todos muito curiosos com essa experiência conclusiva dos encontros.
Quem é o autor e quem são esses jovens reunidos na ONG, que os acolhe?
Fernando é o autor do livro “Estação Amizade- Dez jovens lutando contra o suicídio”, escrito há alguns anos com a ajuda de sua filha adolescente.
Os participantes são jovens sobreviventes, membros de um grupo que nasceu após o suicídio de um jovem. No enterro desse jovem, o organizador do grupo ficou chocado com comportamento dos colegas do rapaz morto, que demonstravam um certo fascínio pela partida do amigo. Uns diziam: “Gostaria de estar aí com você”. Essa e outras cenas de despedida deram início à busca desses e outros sobreviventes, quebrando o ciclo de um possível contágio de autodestruição.
Reunidos os primeiros participantes, desse e de outros círculos de conhecidos, foi iniciado o primeiro encontro. Ali, todos têm muitas razões e motivos para estar e trocar experiências. Os relatos são vivos e cheios de nuances pessoais que os demais desconhecem ao ouvirem um colega descrevendo suas reações e seus sentimentos diante das situações que passaram e ainda convivem. Apesar da gravidade e tristeza de alguns relatos, as reuniões são sempre muito descontraídas e festivas, animadas pelos próprios participantes.
A reunião de hoje logo é transformada num bate-papo com Fernando, que aproveita o momento para responder muitas perguntas dos participantes, sobre o livro e também colher as impressões deles sobre os personagens e principalmente sobre as transformações pessoais ocorridas durante e após os encontros. Ele mesmo se surpreende com algumas dúvidas e opiniões, que nem imaginava existirem sobre os personagens e as coisas que escreveu com a ajuda da filha. O livro era originalmente um roteiro de um documentário para homenagear um amigo de sua filha. Esse amigo dela se enforcou numa brincadeira virtual, na casa de um tio, onde estava morando após a separação dos pais. Ela e os amigos desistiram do documentário e o roteiro virou livro, acrescentando histórias que Fernando vivenciou nas escolas onde deu aulas. Ele explica que nunca tinha escrito um texto nesse formato com narrativa de ficção, personagens e e tramas. Teve que aprender a dar personalidade aos protagonistas e definir cada um dos papéis que eles representavam na história. Isso facilitou a interligação deles, surgindo uma trama coletiva e central composta por pequenas histórias individuais. Lembrou que teve dificuldades na sequência dos capítulos e que também teve dificuldade para concluir e finalizar a história.
Fernando lembrou que livro foi rejeitado por várias editoras. As que se interessavam, exigiam que a palavra “suicídio” fosse retirada do título. Era uma reflexo e prova de que o tema é ainda um tabu. O autor não cedeu às sugestões dos editores. Seguiu o conceito científico da OMS-Organização Mundial de Saúde de que falar abertamente sobre suicídio não causa outros suicídios. Pelo contrário, falar gera círculos de proteção e de apoio, causando o recuo da ideação suicida. Falar protege porque estimula o instinto de conservação e os pedidos de socorro. Não falar causa silêncio de intenções que resultam em mortes que podem ser evitadas por esse gesto de prevenção. O autor conta para os participantes que havia recebido uma mensagem pelo Facebook de um jovem leitor da Costa Rica. Ele veio em viagem turística ao Rio e, na volta, viu o livro numa loja do Aeroporto. Disse que que comprou o livro quando buscava algo atraente para que pudesse aprender melhor o nosso idioma. Chamou sua atenção duas palavras estampadas na capa: Amizade e Suicídio. Agradeceu muito pelas histórias que leu e que também ajudou no seu esforço de aprender português... A mensagem enviada desse turista para Fernando veio com uma foto dele segurando o livro enquanto dirigia no trânsito em sua cidade. Fernando não perdeu a oportunidade de divulgar essa experiência, principalmente ao editor que publicou a obra e que também tinha dúvida sobre o título escolhido. Teve dúvidas, mas acatou os argumentos de Fernando.
Encerrado esse último encontro, com deliciosos comes, bebes e muitas gargalhadas, foi retomada a maratona do caminho de volta e das caronas. Já são quase 22 horas. Momento de voltar para casa, deitar a cabeça no travesseiro e pensar sobre a noite que estava avançando e a semana que estava por vir. Todo dia é dia de Viver.
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24
FLÁVIO E DÉBORA SÃO SONÂMBULOS
Professor, vamos conversar?
Foi com essa pergunta que Luciana se dirigiu à Flávio, para aproveitar o final da última aula da tarde de sexta-feira. Eles tinham apenas alguns minutos para travar uma rápida conversa sobre a experiência de Luciana. Ela estava visivelmente ansiosa para fazer o relato sobre o estranho sonho que teve na última noite. Sonhou que havia sido morta e que seu assassino apareceu duas vezes para ela. Na verdade este era o segundo pesadelo que tivera com ele.
Ao ouvir o relato da colega, Débora, que estava sentada um pouco distante, também se aproximou da mesa de Flávio para ouvir o que o professor falaria sobre o ocorrido. Os demais alunos estavam dispersos conversando ou vendo seus celulares e nem se deram conta do que estava acontecendo em torno da mesa do professor. Débora ouviu as explicações de Flávio e resolveu falar o que havia acontecido com ela. Também viu seu assassino, numa cena na qual ela havia morrido quando tinha nove anos. Débora e Luciana têm 13 anos de idade. Flávio ouviu atentamente essas duas histórias recorrentes nos sonhos das duas alunas. Não foi necessário que perguntassem o significado de tudo isso:
- É uma memória que vocês têm guardadas. Não se preocupem. Não é uma premonição e sim uma lembrança de algo que aconteceu há muito tempo, mas que ficou gravada na memória mais profunda da mente.
- Professor, disse Luciana, essa lembrança de vida passada é muito estranha. A gente se vê nos lugares e nas situações, mas parece que somos estranhos, mas é a gente que está lá.
- Débora-pergunta Flávio- você é sonâmbula? Vê e conversa com pessoas que não conhece, mas é reconhecida por elas?
- Verdade, professor, não as conheço, só que elas sabem quem sou eu. Não sou sonâmbula. Apenas sonho
- Vejo e converso como se estivesse num sonho, mas estou acordada- lembra Débora. Além disso, professor, sempre acordo da madrugada e vejo vultos passando da cozinha para a sala da minha casa. São vultos brancos.
Flávio lembra a elas que, quando tinha mesma idade, era sonâmbulo e vivia conversando com estranhos que o chamavam para ir ao campo gramado que tinha em frente de sua casa. Ficava num estado febril, que só passava quando sua mãe se levantava para colocá-lo na cama e pegasse no sono novamente.
- Quando crescerem um pouco mais, isso vai desaparecer.
Ao dizer isso, Flávio olhou para Débora alertando-a que – no seu caso – essa perturbação voltaria quando ficasse adulta:
-Você é médium e precisa realizar uma tarefa de ajudar pessoas em sofrimento. Você saberá quando e o que deve fazer para que isso se realize e também não prejudique sua vida.
- E eu, professor? perguntou Luciana.
- Você não tem mediunidade de tarefa. Só a natural, que todos têm. Isso que acontece com você é só uma memória traumática. Talvez, essa pessoa que aparece para você vai ser seu filho ou então seu futuro companheiro, que você ainda não sabe onde ele está. Ainda.
- Outra coisa, professor. Meu primo vem me ver quase todas as noites, mas ele está na casa dele dormindo. Como isso é possível?
- Durante o sono ele sai do corpo e fica livre. Isso que acontece com todos nós. Depende da nossa mente e do nosso coração, os sentimentos. Já li um livro sobre a infância de Jesus relando que, quando criança e durante as reuniões religiosas que pais frequentavam nas cavernas no Monte Nebo (onde viviam os essênios), depois de correr e brincar com outras crianças, ele dormia um sono profundo. Seu Espírito saía corpo e se mostrava - iluminado em forma adulta - e fazia preleções sobre sua missão no mundo. Depois despertava como criança e nem lembrava o que tinha dito. Mas quem via, não esquecia a cena nem suas palavras...
Flávio olha para a porta da sala e recebe o aviso de que pode dispensar a turma.
São 18:20 horas.
O pátio já está cheio de alunos indo para suas casas e sua classe se mistura rapidamente com as demais.
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JULIANA E CLAUDIO NA TORRE DO TEMPO
Juliana e Claudio percorrem um dos longos corredores da Torre do Tempo, edificação muito conhecida na grande metrópole espiritual Esperança. A torre de muitos andares não é a única naquela vasta paisagem que parece ser a extensão de uma grande região serrana entre São Paulo e Minas Gerais, sendo até de menor expressão arquitetônica entre aquelas que abrigam as atividades diretoras e funcionais da cidade. Entretanto, mesmo estando deslocada da região urbana central, pois foi erigida na parte mais alta do vale, ela é uma das principais referências visuais da metrópole, exatamente porque, semelhante aos grandes templos da Antiguidade, tem um significado emblemático para os seus habitantes.
A Torre tem o formato de uma pirâmide, revestida externamente de material eletromagnético que lembram as modernas telas de cristal líquido de televisão e dos computadores. A edificação pode ser observada de qualquer ponto da cidade e se move em sentido circular sobre uma base vítrea, rodeada pelas águas de um enorme lago que não nos pareceu artificial. Por mecanismos que ainda desconhecemos na Terra, a torre gira em torno de si mesma e, semelhante a um gigantesco e vivo diamante, muda de coloração ao receber milhares de sinais vibratórios vindos de todos os pontos urbanos. O movimento luminoso espetacular dessa enorme antena de recepção e emissão somente poderia ser comparado, de longe, ao fenômeno da aurora boreal encontrado nas regiões frias do Polo Norte.
Como nas grandes metrópoles, Esperança nunca dorme, porém, no período noturno, parte significativa dos habitantes descansa de inúmeras formas, incluindo o sono. Nesses momentos de repouso a Torre recebe a maior carga de emissões energéticas mentais ampliando um espetáculo visual maravilhoso que gostaríamos de descrever nos mínimos detalhes, mas que a linguagem escrita e as limitações das nossas analogias não podem dar conta, tamanho o espanto que causa nos visitantes.
O corredor no qual Claudio e Juliana caminham em busca de esclarecimentos é muito extenso percorrendo três lados da torre, sendo repletos de salas e auditórios, e leva ao Centro de Estudos Existenciais, ponto central e nervoso do edifício e que se intercomunica com outros departamentos de pesquisa e atividades reencarnatórias. Como nas demais descrições sobre cidades do Além, a Torre do Tempo em Esperança possui três grandes centros, compostos de inúmeros núcleos de experiências teóricas e treinamentos existenciais. Tais núcleos são agrupados por afinidade de conhecimento e interesse em cada um dos grandes centros denominados e dispostos arquitetonicamente de acordo com as suas respectivas vocações:
O Instituto do Passado e do Inconsciente, cujo símbolo é a memória e o eixo de estudos são as reminiscências; o Instituto do Presente, tendo como símbolo a consciência e como eixos temáticos a regeneração e os campos de provas; e o Instituto do Futuro, tendo como símbolo a superconsciência e eixo temático os planos de vida e evolução.
Como junção dos três institutos de pesquisa, a torre piramidal tem no seu âmago, que vai da base até o topo, uma grande mandala geométrica, que também muda sua posição bipolar, de baixo para cima e de cima para baixo, conforme a intensidade de vibrações captadas no plano externo, representando ora o Universo, ora a Mente; ora a Existência, ora a Consciência. Quem ali permanece para observar, estupefato, dependendo da capacidade e interesse de percepção, é tocado intimamente pela dinâmica visual e psíquica (pois não são apenas os sentidos comuns que ali se manifestam), e vê num instante um grande relógio funcionando no sentido horário e objetivo; e num outro instante uma enorme bússola indicando subjetivamente o norte que todos anseiam. Em alguns momentos a o relógio a bússola se interpenetram, demonstrando as curiosas nuances da interconexão entre corpo e mente
Chegando a um dos núcleos do Instituto do Futuro, os dois jovens são conduzidos por assistentes de informação para um vasto salão onde centenas de espíritos aguardam instruções. Com exceção dos servidores que ali laboram, as vestimentas dos frequentadores são muito semelhantes as que usamos em nosso plano, guardando as devidas diferenças de gosto e época nas quais os usuários viveram quando encarnados. Os trajes e acessórios típicos das primeiras décadas do século 21, bem como os mais recentes, tinham aparência nova e caimento harmonioso, refletindo o estado íntimo dos portadores.
Os participantes conversavam em pequenos grupos e poucos permaneciam isolados, já que o ambiente era convidativo para o contato humano e afetivo. Mesmo aqueles que se mostravam introspectivos tinham a companhia de alguém, também em postura discreta e disponível para ouvir qualquer manifestação, verbal ou não. Os dois jovens logo são acolhidos por um dos grupos, cujas conversas revelam uma preocupação comum: a dificuldade cada vez mais crescente de reencarnar em ambientes idealizados, restando somente as opções que a maioria receia, por não ter condições morais para enfrentar os desafios. Chama a nossa atenção nesse grupo o tema discutido abertamente entre os participantes: egoísmo e o comportamento defensivo. Alguns não se constrangem em revelar que falharam gravemente nesse aspecto e que agora lamentam a falta de oportunidades para renascer em corpos e núcleos familiares e amigos. Alguns relatos são tocantes e causam comoção em alguns integrantes daquela conversa franca e informal. Nenhum deles se atreve a comentar as experiências dos outros fazendo qualquer tipo de juízo a respeito do que ouvem no círculo.
Eles estão sentados em poltronas confortáveis e no centro do grupo surgem espontaneamente, em pequenos intervalos, imagens holográficas, as quais projetam situações reais de pessoas encarnadas. Nessas imagens tridimensionais os encarnados expressam de maneira enfática pontos de vista e justificativas para o modo de vida que adotaram a partir de determinados momentos das suas existências. As cenas causam entre os expectadores do grupo reações que vão da decepção até as mais profundas reminiscências de culpa e remorso. Numa delas, um jovem casal participa de um programa de televisão sobre o curioso mercado de pet shops e sua variedade de serviços: banhos, produtos de higiene, embelezamento e até festas de aniversário dos bichinhos, com farta mesa de comes e bebes para os convidados. A cena faz calar o grupo quando a entrevistada diz que ela e o marido fizeram a opção de “não ter filhos”, escolha, segundo ela, pensada e madurecida a dois. Terminada a entrevista, o holograma virtual se desfaz e o grupo volta para as suas reflexões pessoais.
Nesse momento o casal recém chegado pede licença para se retirar e se dirige a um dos assistentes de informação, que observam atentamente as discussões dos grupos. Incomodado, o casal que se retira quer saber onde buscar novas orientações, palestras ou aconselhamento terapêutico mais específico. Depois de uma longa conversação com um dos assistentes, este sugeriu que buscassem um núcleo do Instituto do Presente a permissão para freqüentar uma escola de adaptação de crianças recém desencarnadas. Eles já entenderam matematicamente o desequilíbrio entre a demanda e oferta de corpos e ambientes afins para reencarnação. Quando encarnados, não cultivaram os laços familiares, afastando-se até mesmo daqueles que haviam lhes permitido a experiência na carne. Arrependidos, não conseguiam se aproximar dos entes encarnados. As portas da afinidade estavam fechadas. Todavia, poderiam abrir novos caminhos. Poderiam frequentar por algum tempo esse núcleo infantil, onde compreenderiam melhor a vivência da paternidade e da maternidade. Eles observariam, em estudo sistemático de aprendizagem , o encontro de pais encarnados e filhos desencarnados, durante o período de sono físico. Presenciariam de perto a dor da separação e a angústia do luto e da saudade. A volta à carne de que tanto precisavam só seria possível em ambientes "estranhos" e socialmente precários. Seria também o início de uma conquista gradual do altruísmo.
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26
MILTON, PRESSA E PAPO RETO
Milton tem pressa de voltar para casa, busca rapidamente a estação Ana Costa do VLT.
São mais ou menos 21:40h.
Foi gravar um pod-cast na casa de um amigo.
O grande hipermercado que havia ali perto foi fechado há alguns meses e isso torna o lugar mais escuro e talvez inseguro.
Não é somente ele que está com pressa.
De longe, Milton observa um jovem segurando com cuidado uma embalagem de alimento.
Já próximo, pensou que o caminhante ia oferecer-lhe algo para comprar.
Nada a ver.
O jovem se posicionou ao seu lado e perguntou:
- Será que ela aceita alguém que já tem um filho”?
Antes da pergunta, já tinham trocado alguns olhares, Milton de desconfiança; e o jovem com semblante de preocupação e pedido de ajuda.
Milton responde secamente:
- Acha que isso vai te atrapalhar. Tá bem preocupado né...”
- Não sei se ela vai entender...
- Entendo... Medo de ser rejeitado né...
O jovem olha para a embalagem, que parecia ter dentro algo doce, sorri e acelera o passo.
Milton se despede:
- Boa sorte, tomara que dê certo!
O jovem nem olha para trás, mas levanta a embalagem mostrando sua arma de conquista.
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27
CLAUDIO CONVERSA COM ANJOS DA GUARDA
Claudio é religioso. Mas também gosta de assuntos científicos que tentam explicar os mistérios da vida e do universo. Suas aulas são sempre recheadas de curiosidades sobre as civilizações antigas e também as novidades e descobertas sobre os planetas, galáxias e, mais recentemente, sobre os Buracos Negros, que engolem as estrelas e galáxias inteiras.
Diz ele: “Tudo isso nos deixa pequenos e insignificantes diante da imensidão dos Cosmos”.
Os alunos ouvem frases como esta, cheias de filosofia e misticismo, e ficam imaginando de onde ele tira essas conclusões.
Mas, de todas as coisas que Claudio fala, o que mais assusta e intriga os alunos é quando ele diz que vai conversar com os Anjos da Guarda de cada um, para reclamar do comportamento deles.
O mais curioso é que quase ninguém questiona absolutamente nada sobre isso. Se espantam, riem e até reclamam estarem sendo vítimas de uma injustiça, pois nunca fizeram nada de grave para convocar seus protetores espirituais.
Entretanto, quando Claudio fala sobre isso, alertando que vai se reunir num só encontro e cara-a-cara com os anjos protetores e com os pais para uma conversa, na hora em que todos estão dormindo, a maioria muda o semblante e algo grave fica no ar. Pensam: ou ele está maluco ou então isso realmente pode acontecer e as coisas vão ficar ruins para eles. Alguns até ousam questionar essa possibilidade e logo são alertados:
“Independente de vocês acreditarem ou não, eu vou conversar com eles e pedir que tomem providências. Eles sabem como agir e muitas vezes acontecem coisas que a gente nem conseguem explicar, mas sabemos que são intervenções, de todos os tipos, tomadas por eles para conter abusos e risco de desvios de comportamento”
As reações ao alerta são diferentes entre os alunos. Uns riem céticos; outros mudam o semblante, desconfiados de que o que está sendo falado tem algo muito muito sério, mesmo que não saibam explicar o que está acontecendo. Da última vez que alertou uma das classes, um dos alunos reagiu:
“Menos eu porque eu não participei de nada de ruim que eles fizeram. Tava quietinho aqui, na minha”
Para alguns mais curiosos, que são bem poucos, Claudio explica como acontecem as reuniões:
“São desligados do corpo durante o sono físico e conduzidos mentalmente para as colônias do Espaço de onde vieram todos eles. A presença dos pais é imprescindível. Estes também sofrem choques ao lembrarem do passado. A diferença é que o Anjo possui uma espécie de fichas contendo informações chocantes sobre eles: coisas que aconteceram nesta e noutras existências. São os pontos nevrálgicos e as causas de novas quedas e agravamento dos erros e medidas de regeneração.
Outro detalhe: quando estão em outra dimensão, o bloqueio do esquecimento do passado que todos temos, é rompido e vem à tona essas informações antigas que explicam esses impasses existenciais das encarnações.
Claudio toca nesse assunto com os alunos como uma ferramenta para combater a dispersão mental e provocar mudanças de comportamento voltadas para para a concentração, resgate de valores pessoais e familiares habilidade de concentração. Anjos da Guarda ainda é uma crença muito forte na cultura religiosa popular. Mesmo não tendo noção do que o professor fala, muitos alunos ficam perplexos e impactados com essas abordagens. Ao fecharem os olhos para dormir, segundo relatos de alguns deles que têm problemas com insônia, recordam o que foi dito e conseguem ter um sono mais tranquilo. E ingressam num universo completamente diferente de quando estão na carne.
Professores que têm dificuldades com alguns alunos e classes procuram Claudio para pedir ajuda. Ele recomenda que entrem em sintonia mental com os Anjos da Guarda desses alunos, como uma experiência real possível (espiritual) para resolver conflitos e harmonizar o trabalho. Uma professora, Elisabeth, descreveu para ele uma cena em classe na qual uma mulher posicionou-se ao lado dela enquanto conversava com uma aluna. Presença estimulante, agradável e transformadora.
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MARISA E JOEL TIVERAM UM ENCONTRO
Luiza entrou na faculdade, como as demais alunas da classe, para buscar novas oportunidades onde trabalha e outros ambientes escolares mais estáveis e melhor remunerados. É um grupo majoritária mente feminino, com apenas dois ou três homens. Na classe tem jovens senhoras, como Luiza, já casadas em com filhos, e também alguma idosas. Mas as jovens, muitas ainda adolescentes, são a maioria.
Nessa classe de quase 80 alunos estão misturados calouros de primeiro semestre de vários cursos de licenciaturas, matriculados numa disciplina comum. Epistemologia da Educação é o título do curso ministrado pelo professor Joel. Matéria complicada e considerada difícil, por ser muito teórica. O foco é o conhecimento, sua estrutura e principalmente sua apropriação. Ele explica inicialmente os graus e categorias de escolaridade e de autonomia intelectual, das primeiras experiências do ensino básico até as mais avançadas do ensino superior. Joel já passou por todas essas fases e que despertar seus alunos para esse processo de amadurecimento e autonomia. Entretanto, o ambiente acadêmico, rígido e científico, também é humano e nele acontece coisas que a ciência ainda não explica ou não quer explicar.
Luiza e Joel trocam olhares humanos durante as aulas. No começo era pura curiosidade e admiração mútuas: pela oferta e pela busca do conhecimento. Mas com o passar das semanas os olhares foram mudando de tom, assim com o os interesses. Luiza foi ficando introspectiva e mais preocupada consigo e de como o professor Joel também foi ficando diferente, mais sério e calmo (no começo era brincalhão e agitado). Os dois estão crise conjugal. Estão atraídos por afinidade de vivências. Algumas colegas de Luiza percebem o risco de um envolvimento mais profundo e tentam afastá-la de Joel. Outras incentivam e não escondem a admiração e curiosidade pelas consequências da situação. Os dois estão em compasso de espera. Esperando mais um semestre acabar e ver se algo diferente iria acontecer. E aconteceu.
Já estão no segundo semestre do curso. Joel agora ministra outra disciplina. A turma ficou mais compacta e o relacionamento também amadureceu e ficou mais próximo.
Conversando com Joel pelas redes sociais, Luiza, ainda em pleno sofrimento existencial, foi tomada por uma forte sensação de deslocamento mental. Joel também ainda sofria. Ela recordou vivamente de um sonho que tivera durante a noite:
“Essas fotos que colocou no Face, onde você nasceu, das pessoas e lugares, é estranho porque parece que eu já vi.
Tinha uma senhora com vestido e outra moça nova na cozinha.
Foi um sonho que tive no ano passado.
Essa senhora disse que estava com saudades de você, a moça era bem simples acho que estavam mortas.
Perto da lagoa tinha um senhor e outras crianças. Um menino se afogou e o senhor chorou muito. O menino estava morto creio que o senhor já faleceu.
Tinha fotos na parede do corredor da sala e uma mesa com fotos.
Alguns lugares era plano e outros era alto.
Tinha uma festa, uma comemoração em um lugar alto e todos da cidade iam lá.
Você novo, as vezes criança. Estranho.
A senhora ressalta sempre que sente sua falta”.
Já se passaram quase dez anos. A cena descrita por Luiza ainda ecoa na mente de Joel. Não houve nada carnal entre os dois, só oportunidades e desejos passageiros. As crises pessoais foram superadas ou transformadas, cada um seguindo suas escolhas e destinos.
Joel sabe que a descrição de Luiza não foi apenas um impulso ou fantasia. De vez em quando sente que as pessoas citadas no relato de Luiza ainda estão perto dele. Uma delas já estava bem mais próxima. Era sua filha, na época com 12 anos de idade. A senhora e o senhor continuam no outro plano, aguardando uma nova existência.
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29
JOÃO PAULO, GILSON E A TORRE EIFFEL
João Paulo lembrou que precisava deitar e dormir. Estava tarde e, do contrário, não conseguiria chegar a tempo na primeira aula da manhã. Apagou todas as luzes e recolheu-se rapidamente para aproveitar as poucas horas de sono. Ao fechar os olhos percebeu a aproximação de algumas faíscas. Achou que era um efeito da luz do computador e que logo iria passar quando caísse no sono. Não era. As faíscas, muito fracas e amareladas, persistiam num incrível esforço de luminosidade, que foi diminuindo e depois apagando. Apesar de achar estranho e pensativo, conseguiu dormir.
No dia seguinte, à caminho da escola, voltou a pensar nas faíscas.
O que teria sido aquilo? Um sinal, um pedido de socorro?
Lembrou de Gilson, um aluno que conheceu ainda adolescente e que , volta e meia, encontrava nas calçadas do centro comercial da cidade. Alguns dias antes tinha visto na página dele no Facebook uma postagem de luto e despedida. Intrigado, buscou outra postagem, de apenas uma ou duas semanas antes. Nesta Gilson aparecia em Paris com um pessoa, a mesma que fez o texto do luto. Eles fizeram uma viagem rápida -tipo bate e volta- sem hospedagem. Fizeram fotos em conhecidos pontos turísticos e finalizaram o tour na Torre Eiffel, ele entregando para sua acompanhante um buquê de flores.
No pensamento de João Paulo persistia uma dúvida que não deve ter sido somente sua: Quem vai a Paris celebrar cenas de realização e felicidade e dias depois tem sua morte anunciada dramaticamente, aparentando ter sido vítima de uma doença irreversível ou simplesmente um suicídio?
João Paulo continuou muitos dias intrigado com o desaparecimento de Gilson. A imagem dele com aquela garota embaixo da Torre Eiffel foi durante alguns dias uma persistente inquietação em sua memória. Questionou uma amiga que também havia sido professora de Gilson e teve como resposta uma chocante conclusão:
“Então ele não se decidiu. Uma pena...”
João Paulo concluiu ou imaginou mil coisas depois dessa observação da amiga. Mas preferiu responder em noites seguidas, aquilo que considerou um pedido de socorro do aluno que se foi. Para cada faísca apagada um pedido para que Gilson voltasse a ter luz e buscasse um recomeço.
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GABRIEL, JERÔNIMO E O ÔNIBUS VELÓZ
O percurso entre o centro da cidade e o Planalto Bela Vista é tão rápido que muitas vezes os passageiros do ônibus se distraem em suas conversas e não percebem a chegada dos seus pontos de decida. “Vai descer, vai descer”, gritam alguns ao perceberem que serão levados para duas ou três quadras adiante. Alguns motoristas param, outros não.
Gabriel e Jerônimo se encontraram no centro, entre os pontos do Distrito Policial e do Hospital, reconheceram-se, tomaram assento e foram logo colocando a conversa em dia, cheia de lembranças e reflexões. Estavam tão concentrados e espontâneos que a maioria dos passageiros parecia estar atentos às suas trocas de ideias e impressões. Durante o percurso, que nesse dia foi mais rápido devido ao horário de pouco movimento no trânsito, Gabriel tornou-se ouvinte e observador enquanto Jerônimo colocou-se como narrador de vários assuntos de interesse comum entre eles. A conversa foi, na verdade, uma entrevista na qual um fazia perguntas curtas e o outro dissertava suas respostas com muita disposição.
Os dois amigos se conheciam há mais menos uns dez anos. Conheceram-se na faculdade onde Gabriel atuava como docente. Luiz Carlos, filho de Jerônimo, também tinha sido aluno de Gabriel, em outro curso da faculdade. Os dois tinham uma forte inclinação para a literatura, ele para a prosa e o filho para poesia musical.
Jerônimo, já aposentado e querendo realizar um antigo sonho, matriculou-se no curso de Matemática. A turma era pequena e não passava de 20 alunos. Gabriel não era dessa área e suas aulas nessa turma eram voltadas para os temas humanos da educação. Mesmo assim, fazia questão de ilustrar os encontros com temas diferenciados e recheados de curiosidades científicas e atualidades. Pretexto para tornar a abordagem de assuntos monótonos e repetitivos da legalidade do ensino e da educação. Diante da dureza e rigidez do currículo das especialidades exatas, as aulas de humanidades eram consideradas pela turma como um momento de lazer e higiene mental. Sempre motivo de alegria e disposição.
Enquanto Jerônimo narrava poética e despreocupadamente as últimas transformações ocorridas em sua vida, Gabriel calculava mentalmente a relação entre espaço, tempo e distância nas quadras que o ônibus avançava entre os pontos de parada. De olho no aluno e amigo, porém sempre atento à sucessão semáforos, colocados estrategicamente nos cruzamentos das ruas e avenidas. O ponto crítico do trajeto era o viaduto que separava os dois bairros. Terminada essa linha transitória elevada, o ônibus concluía essa passagem centro-bairro exatamente onde deveria descer.
Embora concentrado em sua fala, Jerônimo não estava totalmente desatento a esse contexto. Tanto que, antes que o ônibus virasse em uma esquina e se dirigisse ao elevado, ele alertou o amigo:
“Você vai descer logo, né”?
E continuou narrando o último episódio de mudanças pessoais, agora com mais gravidade. Lembrou que havia perdido a companheira e vinha fazendo um enorme esforço para manter as coisas nos devidos lugares. Em apenas duas quadras ele disse que esta foi a experiência mais difícil de todas que havia contado ao professor. Período de intensa solidão e de escolhas duvidosas. Mas conseguiu resistir às tentações dos sentidos evitando se aventurar em relações superficiais que jamais preencheria a ausência da mãe dos seus filhos. Esse último relato foi feito de forma sentida e comovente. Gabriel viu no rosto do seu antigo aluno - que não economizou elogios de reconhecimento à sua condição de professor – uma expressão de dor que há muito tempo ficou sem poder ser revelada. Não teve vergonha e nem ligou se as pessoas que ouviam a conversa saberiam o que se passava em seu coração. Sentiu-se aliviado. Gabriel colocou a mão no seu ombro e logo em seguida estendeu-a na posição despedida, trocando algumas palavras de reconhecimento e satisfação.
“Dá um abraço no Luiz Carlos!!!”.
Jerônimo respondeu imediatamente:
“Dou sim. Ele gosta muito do você”!!!
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SUSANA SONHA E VÊ O FUTURO
Susana chegou em casa cansada, tomou banho, fez sua refeição assistindo vídeo youtube. E foi dormir. Dorme sempre assistindo vídeos. Seu pai espera ela cair no sono para desligar o celular. Ao acordar pela manhã, geralmente despertada pelo cheiro de café, vai até a cozinha e relata seus sonhos para o pai. Neste ela contou um sonho que a impressionou muito. Mistura de profecia e incerteza sobre o futuro.
A ponta da grande ilha, ao contrário do que é hoje, próspera e movimentada, é um cenário de destruição e abandono. Os prédios foram engolidos por uma floresta hostil e ameaçadora. Muitas crianças vagando pelas ruas em busca de alimentos e atenção dos adultos.
Poucos segundos depois Susana está n outra ponta da ilha, há oito quilômetros. Ela percebe que um grupo de cientistas caminha na direção dos morros. Eles encontram cabeças de robôs enterradas no meio de um matagal. Ao desenterrá-las, acontece algo interessante: as cabeças começam a conversar entre sí por meio de códigos que ela não conseguiu decifrar. Os robôs reconstroem uma vila que havia sido destruída há muitos anos. Os cientistas se afastam e desaparecem. Susana também se afasta e caminha na direção de um lugar perdido no meio da floresta. É uma vila e ali um professor e seus alunos se dirigem à uma feira. Ele conversa com os feirantes sobre a rotina diária enquanto os alunos observam o diálogo tentando extrair conhecimentos sobre o trabalho e experiências de vida. Os feirantes explicam de uma forma bem diferente como as coisas funcionam. Eles se expressam em versos rimados, muito parecidos com o cordel. Alguns versos são divertidos e engraçados; outros são mais carrancudos, puxões de orelha. Os feirantes alertam que os alunos, quando forem à feira, não podem andar de chinelos nem estar com o cabelo desarrumado. O professor agradece os ensinamentos e caminha com os alunos em busca de novas informações.
Susana agora muda o semblante, porém não interrompe o relato.
No meio da feira eles encontram um caminhão. Na carroçaria está um homem alto, de cabelos loiros e óculos escuros. O professor inicia uma conversa com ele perguntando o que fazia ali e se poderia dizer algumas palavras para os alunos. Supreendentemente, o homem aparece com uma arma enorme e começa atirar para todos os lados. Susana se afasta, com se levantada pelo vento e, de cima, percebe que todos na feira estão mortos. Toda a vila fica envolvida numa fumaça branca, que arrasta tudo que ali estava para a parte mais densa da floresta e desaparece.
Susana desperta com o cheiro de café. Antes de ir à cozinha, senta-se no braço do sofá e inicia o relato que tinha acaba de sonhar.
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LAURO "FRANCÊS" E O VIZINHO PABLO
Durante alguns anos Lauro teve um vizinho muito curioso. Morava sozinho e já tinha mais de 80 anos. Era um espanhol que tinha vivido na França desde à juventude e lá se aposentou como professor primário. No Brasil sua renda valia mais. Tinha casa em São Paulo e esse pequeno apartamento veranista. Eram vizinhos de parede. Curiosamente ele chamava Lauro de “Francês”, apelido que sempre o fazia desconfiar que o vizinho achava que ele não gostava de tomar banho. Na verdade, quem tomava banho de vez em quando era o espanhol afrancesado.
Na medida que os dias passavam os banhos do vizinho diminuíam. Foi ficando cada vez mais difícil a vida dele morando sozinho. E do vizinho também. Vez em quando ele começava a gritar, de madrugada. Todos já sabiam que que ele resolveu tomar banho e se acidentou no box. Dava um trabalhão, com bombeiros, ambulância, enfim, problema.
Passando essas tempestades, tudo voltava quase ao normal. Francês pra lá, Francês pra cá, até que um dia o vizinho despareceu.
Certo dia, pela manhã, a faxineira abriu o apartamento para ventilar e informou que o nosso vizinho de Lauro não ia voltar mais. Tinha falecido em São Paulo. Um sobrinho dele herdou tudo e colocou o apartamento à venda. Precisava de outro maior para as temporadas, pois tinha uma família enorme e muito amigos. Lauro até pensou em comprar o apartamento do professor e ampliar seus metros quadrados, que eram poucos, mas desistiu quando foi verificar se valia a pena.
Lauro já se mudou faz muitos anos, mas sempre que passa em frente ao prédio se lembra do vizinho, que aliás lembrava em quase tudo, fisicamente, o pintor Pablo Picasso: baixinho, careca, musculoso e sempre usando somente um calção. Nem chinelos ele usava.
Lauro interrompe a caminhada, olha para o corredor de acesso ao bloco onde morava e tenta reviver a alegria e disposição do vizinho, professor como ele, saudando-o sorridente:
- “Ôooo, Francês”!!!
Lauro até hoje não entende por que o velho professor o chamava desse jeito. Quem sabe um dia descobre.
*
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VICENTE EM DÉ JAVU
Vicente sente-se só. Tem dia que não suporta solidão dos fins de semana. Angustiado e incomodado pelo tédio, sai de casa para uma caminhada. Sente que a tarde de domingo vai ser diferente. Ele é inexplicavelmente atraído para os mesmos lugares que o deixam deslocado da realidade. Para manter o controle de si, inicia um relato mental , como se estivesse narrando um livro ou um filme.
Nesse instante , minha mente está cheia de recordações. Meus olhos estão olhando para o chão molhado pela chuva de verão e meus ouvidos ouvem os repetidos trovões que anunciam que vai chover o dia inteiro, espantando os turistas que caminham pelo calçadão da praia e os que aproveitavam os últimos minutos de sol deitados sobre a areia.
Os ritmos da natureza ainda são a suprema força que movimenta o planeta. A chuva, o vento e os trovões despertam em mim a vontade de ver o mar e a arrebentação das ondas. É irresistível e faço isso há séculos. Antes tinha muito medo dos raios. Hoje sei que eles ainda caem por perto, mas conto com abrigos dos quiosques ou das marquises dos prédios perto da orla.
Saio de casa e em poucos minutos estou lá olhando o mar. Mais alguns minutos e duas ou três trovoadas são suficientes para eu ver a praia com outros olhos. Não tem calçadão, quiosques, não tem avenida asfaltada e edifícios altos. Não estão lá também os moles de pedras construídos para conter as ressacas, quebrando a mureta e inundando a rua. Ao redor só areia e o jundú rasteiro sobre as ondulações de terra. É a Mahuá, a pequena praia entre o Morro da Biquinha e a Ilha do Mudo, na qual deságuam alguns riachos, cavando sulcos na areia. Do outro lado da baía vejo o Morro do Japuí e parte da floresta do Xixová.
Já fazem duas décadas que o novo século começou e São Vicente está praticamente a mesma desde quando fui morar em São Paulo em 1985. Vejo na internet fotografias antigas da cidade, em diferentes épocas, e percebo que houve poucas mudanças nos pontos mais importantes. Algumas delas são repetitivas e banais, como o os cartões postais. Outras me causam sensações mais profundas, talvez porque registraram momentos, lugares e pessoas que conheci. Essas são emotivas e despertas muitas lembranças. Tenho essa habilidade natural de ler fotografias com o terceiro olho e parece que entro naquela cena registrada e tudo passa a ter três dimensões. Achei que era um fenômeno sobrenatural, mas logo desfiz essa impressão ao ler o livrinho de Boris Cosoy, catedrático do assunto, teórico e prático. O jeito como ele analisa as fotografias são descobertas de diferentes dimensões da mesma imagem. Com ele parece ser fria e racional; comigo acontece de forma temperamental e perturbadora. O mesmo acontece quando passo em algum lugar no qual sou tomado por desequilíbrios, coisa incontrolável, como um transe psíquico ou sonambúlico.
Sigo caminhando e conforme me aproximo do Itararé a paisagem retoma sua aparência de cidade grande e ouço barulho de carros em alta velocidade em direção a Santos. No fim da calçada entro na Praia dos Milionários, que está vazia de banhistas e com apenas alguns trabalhadores ciclistas que cortam caminho para evitar o trânsito da rua 11 de junho. Ali fico um bom tempo apreciando a baía, onde reina uma certa paz, proporcionada pelo silêncio do mar. Tento me recompor desses transes de memória, dos quais já me acostumei e que me deixam até mais senhor de mim mesmo. Antes ficava assustado e com a impressão de que a loucura havia se instalado em minha mente. Mesmo assim fico apreensivo porque, quando isso acontece, algo em seguida surge algo inesperado e só passa quando o coração não fica mais apertado.
Alguns minutos depois ouço alguém chamando repetidamente pelo meu nome. Era Isabela, filha de uma amiga que sempre encontro nesses passeios pela orla. Raramente conversamos e somente trocamos uma rápida saudação de reconhecimento. Dessa vez ela se antecipou e se dirigiu a mim de forma bem diferente. Estava sorridente e eufórica, muito inquieta. Disse que precisava me contar uma coisa. Estranhei, pois ela nunca havia me contado nada. Achei que era alguma fofoca que haviam contado sobre mim e que ela soube através da mãe. Nada disso. Me pegou pelo braço e disse que tivera à noite um sonho muito estranho. Começou a falar e já não estava mais sorrindo. Sua mão segurou mais forte o meu pulso e foi apertando na medida em que a história se desenrolava. Disse que estava na praia e foi surpreendida por uma tempestade. O céu foi ficando escuro, todos foram sumindo das ruas e ela foi ficando perdida e sozinha. Apavorada lembrou que morava por perto e dirigiu-se para o meu apartamento, já em meio ao caos que tomava conta da cidade, com chuva de vento e redemoinhos gigantescos que percorriam as ruas arrancando telhados, revirando carros, quebrado e arrancando vidraças. Já dentro da minha casa percebeu que as coisas haviam piorado com a ventania tirando pedaços dos prédios vizinhos. Os redemoinhos eram tão fortes e densos que forçavam e quebravam as janelas dos apartamentos. Ela tentava falar comigo pelo celular, pois eu não estava em casa; tentou falar com a mãe e com alguns amigos e ninguém atendia. Convenceu-se de que já estavam todos mortos. Tentando enxergar o mar, quando se aproximava da janela da sala, era logo atacada pela rajada de vento e pelas vergastadas de chuva sobre a vidraça. Ouvia muitas vozes que vinham de longe dizendo que a cidade estava sendo totalmente destruída pelo ciclone. Outros gritavam enlouquecidos: “É o Hipupiara, é o Hipupiara”. Acordou com esses gritos de desespero. Ainda era madrugada. Não dormiu mais. Só ficou mais calma quando me viu andando pela praia e pensou que eu havia tido o mesmo sonho. Percebeu que, embora não aparecesse no sonho, eu estava perto dela o tempo todo testemunhando a sua angústia. Disse, espantada, que nunca havia sonhado daquela forma tão intensa e verdadeira, embora estivesse totalmente fraca e impotente diante do que acontecia. Queria explicações. Respondi que não sabia explicar e nem soube que havia chovido tanto naquela noite, pois havia tido um sono muito profundo. Só não contei pra ela que , enquanto falava e segurava o meu pulso, vi tudo o que se passava naquela sonho, exatamente da forma como contou e como percebeu a minha presença nele. Isabela não estava inventando nem mentindo. O Hipupiara havia voltado com toda a sua fúria, a mesma fúria com que tinha destruído o Tumiaru e todas moradias da vila de Martim Afonso em 1540. Daquela vez foram somente algumas casas e o sino da igreja. Agora seriam os edifícios, os monumentos, muitos automóveis e motocicletas que iriam ser tragados pela fúria do mar. Enquanto Isabel falava e se aliviava daquele pesadelo, meu coração era tomado pelo pavor e a certeza de que a qualquer momento o mundo todo iria acabar, pois tinha visto que não era somente a cidade que foi tomada pelas águas. O mar havia chegado até a Serra, como era há cinco mil anos, antes de recuar e formar as ilhas, as praias e os morros. Depois que soltou meu pulso Isabela parecia ter tido um delírio semelhante a um transe sonambúlico que a fez esquecer tudo que me contara. Despediu-se sorrindo e saiu correndo para fugir dos pingos da chuva que voltaram após uma breve estiagem.
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VICENTE REENCONTRA VICENZO
Dali mesmo fui até a Pedra do Sol. Ninguém por perto. Encostei numa das pedras tentando entender o que aquela pequena ventania queria me dizer. Entendi que era preciso subir a rua da Ilha Porchat, caminhando pela calçada do lado direito. Passando algumas casas , quase já no topo, tem o matagal de onde é possível ver Paranapuã e Itaquitanduba, as duas praias milagrosamente desertas, quase tão selvagem quanto na época da chegada dos primeiros europeus.
Sentei-me na mureta e continuei olhando o movimento das ondas entre a ilha e o maciço Xixová-Itaipu. Em alguns momentos tive a impressão de ter visto enormes bancos de areia e nelas, tombadas de maneira irregular, algumas torres pontiagudas de pedras. Não é um lugar comum. É um santuário protegido por forças desconhecidas e que desestimulam qualquer tentativa de civilizar aquele local.
Já é fim de tarde e vejo que há um movimento suspeito em Paranapuã. De longe dá prá ver que são jovens que perambulam pelas areias numa agitação alegre. São somente meninos, a maioria negros e mulatos, todos usando calção de mescla azul. Subitamente me vejo na praia junto eles e não sei como fui parar lá, no meio daquela correria. Também estava de calção, mas um calção branco meio encardido. De longe alguns homens altos e fortes, de braços cruzados, nos observam enquanto corríamos pela areia, depois do banho de vento. Ficamos ali brincando até cansar, quando alguns sentaram no chão, outros deitaram até que a euforia da brincadeira fosse vencida pelo cansaço.
Ao sinal dos vigilantes fomos todos entrando em fila por uma trilha até chegar em uma grande construção de tijolos e concreto, que parecia ser uma escola, mas não era. Uma placa de metal segurada por caibros de madeira informava que naquele local funcionava uma unidade da Fundação do Bem Estar do Menor-FEBEM.
Interessante que ao entrar na fila da volta da praia ninguém percebeu minha presença, a não ser alguns meninos que, como eu, estavam de calção branco e tinham feições de mamelucos e não dos mulatos e negros. Enquanto alguns se dirigiam para tomar água nos bebedouros ou tirar a areia dos pés nas torneiras, muitos permaneciam sentados num pátio onde aguardariam o jantar. Entre eles percebi que muitos não eram crianças e quando alguns deles percebiam a minha presença passavam a me olhar de forma diferente.
Uns se envergonhavam, outros sorriam e outros me desafiavam com reprovação e ameaça. Reconheci todos eles, lembrando os nomes e de quem eram filhos. Alguns poucos eram os primeiros caçadores do Bacharel e outros eram de outras épocas e lugares próximos, mas todos capturadores e mercadores de escravos.
Nem todos porque entre eles também estava o Padre Vicenzo, magrinho e esperto, sempre sorridente, mostrando-me um crucifixo de madeira e querendo me dizer que ali estava para aprender um pouco mais e cuidar de algumas almas queridas que ainda tinham muitos pecados para espiar. Acenei pra ele dizendo que morria de saudades das suas aulas de teatro e canto. Só não gostava da missa. Conhecia todas as famílias brancas e indígenas da região e tinha um inventário de tudo o que acontecia com elas, desde as crianças até os mais velhos. Perguntei onde estavam algumas delas e ele, em pensamento, me contou que tiveram diferentes destinos, mas sempre voltavam a São Vicente, de alguma forma. Ele as reconhecia nas ruas e tocavam em seus corações ao aproximarem e elas nem percebiam. Apenas davam gargalhadas ou então sentiam algum tipo de saudade inexplicável, como a que senti ao vê-lo sorrindo entre os meninos presos na FEBEM. Quis chorar naquele instante, porém ele me advertiu que eu poderia ser descoberto por alguns mamelucos ainda muito teimosos e revoltados, causando algum tipo de inquietação naquele local.
Padre Vicenzo lembrou que o governo já estava pensado em desativar os reformatórios em todo o estado e encontrar outra forma de educar essas crianças. Esse formato era muito perigoso e atraia muitas almas inimigas e vingativas, como nas prisões de adultos e hospitais psiquiátricos. Naquele momento recordava de todos os abusos e violências sofridas pelos nossos irmãos e que as mesmas coisas aconteceram com os africanos escravizados. “Até chegar a solução –disse o padre - já nos preparamos para enfrentar outras batalhas, pois os meninos já estarão adultos e poucos terão forças para se reajustarem com a lei. Daqui há algum tempo estaremos lá nas terras do Samaritá e em Mongaguá, reconduzindo as nossas almas perdidas”. Ele estava se referindo à construção dos presídios para adultos, na área Continental e no Litoral sul. Não entendi porque construir presídios ao invés de escolas. O padre sorriu e me fez entender que essas almas que acabam indo para os presídios são antigos mamelucos desviados para o crime e, por não aceitarem a educação, vão agravando seus débitos. Todas as cidades que foram fundadas a partir da corrupção e destruição de núcleos indígenas hoje abrigam esses criminosos em presídios e também nos educandários prisionais para jovens. Como é um sistema imperfeito e agravado pelo convívio pernicioso, a maioria não consegue se regenerar. Não há outra solução no momento senão a de curar pelas semelhanças.
Padre Vicenzo vem atuando nesse setor há muitas gerações. Quando o Paraná ainda fazia parte da Capitania de São Paulo, ele foi encarregado de reeducar um grupo de soldados rebelados que foram condenados ao isolamento na colônia de Catanduvas. Os soldados eram do regimento de Santos, a maioria com idade entre 18 e 24 anos, entre eles muitos vicentinos. Desolados pela condenação injusta, aqueles soldados só puderam avaliar a gravidade dos seus gestos quando receberam a sentença que destruiria suas esperanças pelo resto de suas vidas. Pensavam em fuga ou suicídio, o que era praticamente a mesma coisa viver para sempre numa região tão distante e selvagem. Vicenzo sabia que aqueles jovens não eram tão inocentes e injustiçados quanto eles pensavam. A memória do padre ia além daquela existência frustrada pela condenação. Todos eram mamelucos que participavam de incursões criminosas para expulsar os índios de suas terras, a serviço de fazendeiros ambiciosos. As incursões eram traiçoeiras, violentas e cruéis e não poupava nem as crianças, que tinham seus crânios esmagados pelo cabo das espingardas. Viam os índios como animais que atrapalhavam a criação de gado e o plantio das lavouras. Muitos desses grupos expulsos ou mortos por eles se reuniram nessa região do Paraná e continuaram sofrendo com a ambição dos fazendeiros. Perguntei o que aconteceu com os rapazes e ele me respondeu que havia feito um plano de regeneração para cada um deles. Obteriam anistia da pena de 20 anos se constituíssem família com as mulheres indígenas da Colônia, já educadas para esse fim. Aceitando a proposta, eles receberiam terras se estabelecerem como sitiantes. Nem todos conseguiram honrar o compromisso, entretanto os que se firmaram nessa promessa colheram bons frutos naqueles dias e também em outros tempos que viriam. “E os que desertaram”? perguntei. Padre Vicenzo respondeu que alguns deles estavam ali no reformatório de Paranapuã, aguardando dias melhores.
Acordei desse cochilo rápido e, ainda impressionado, voltei para a praia. Já estava escurecendo e meu estômago pedia um café com bolo. Na caminhada em direção ao centro, sempre com a imagem dos caçadores mamelucos e do Padre Vicenzo, vinha pensando onde iria encontrar um lugar que tivesse um bolo pronto para vender, de preferência bolo de fubá. Lá resolveria, dependo do calor, se tomaria café ou um guaraná bem gelado para acompanhar o bolo.
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VICENTE REDESCOBRE A BICICLETA
Dali mesmo fui até a Pedra do Sol. Ninguém por perto. Encostei numa das pedras tentando entender o que aquela pequena ventania queria me dizer. Entendi que era preciso subir a rua da Ilha Porchat, caminhando pela calçada do lado direito. Passando algumas casas , quase já no topo, tem o matagal de onde é possível ver Paranapuã e Itaquitanduba, as duas praias milagrosamente desertas, quase tão selvagem quanto na época da chegada dos primeiros europeus.
Sentei-me na mureta e continuei olhando o movimento das ondas entre a ilha e o maciço Xixová-Itaipu. Em alguns momentos tive a impressão de ter visto enormes bancos de areia e nelas, tombadas de maneira irregular, algumas torres pontiagudas de pedras. Não é um lugar comum. É um santuário protegido por forças desconhecidas e que desestimulam qualquer tentativa de civilizar aquele local.
Já é fim de tarde e vejo que há um movimento suspeito em Paranapuã. De longe dá prá ver que são jovens que perambulam pelas areias numa agitação alegre. São somente meninos, a maioria negros e mulatos, todos usando calção de mescla azul. Subitamente me vejo na praia junto eles e não sei como fui parar lá, no meio daquela correria. Também estava de calção, mas um calção branco meio encardido. De longe alguns homens altos e fortes, de braços cruzados, nos observam enquanto corríamos pela areia, depois do banho de vento. Ficamos ali brincando até cansar, quando alguns sentaram no chão, outros deitaram até que a euforia da brincadeira fosse vencida pelo cansaço.
Ao sinal dos vigilantes fomos todos entrando em fila por uma trilha até chegar em uma grande construção de tijolos e concreto, que parecia ser uma escola, mas não era. Uma placa de metal segurada por caibros de madeira informava que naquele local funcionava uma unidade da Fundação do Bem Estar do Menor-FEBEM.
Interessante que ao entrar na fila da volta da praia ninguém percebeu minha presença, a não ser alguns meninos que, como eu, estavam de calção branco e tinham feições de mamelucos e não dos mulatos e negros. Enquanto alguns se dirigiam para tomar água nos bebedouros ou tirar a areia dos pés nas torneiras, muitos permaneciam sentados num pátio onde aguardariam o jantar. Entre eles percebi que muitos não eram crianças e quando alguns deles percebiam a minha presença passavam a me olhar de forma diferente.
Uns se envergonhavam, outros sorriam e outros me desafiavam com reprovação e ameaça. Reconheci todos eles, lembrando os nomes e de quem eram filhos. Alguns poucos eram os primeiros caçadores do Bacharel e outros eram de outras épocas e lugares próximos, mas todos capturadores e mercadores de escravos.
Nem todos porque entre eles também estava o Padre Vicenzo, magrinho e esperto, sempre sorridente, mostrando-me um crucifixo de madeira e querendo me dizer que ali estava para aprender um pouco mais e cuidar de algumas almas queridas que ainda tinham muitos pecados para espiar. Acenei pra ele dizendo que morria de saudades das suas aulas de teatro e canto. Só não gostava da missa. Conhecia todas as famílias brancas e indígenas da região e tinha um inventário de tudo o que acontecia com elas, desde as crianças até os mais velhos. Perguntei onde estavam algumas delas e ele, em pensamento, me contou que tiveram diferentes destinos, mas sempre voltavam a São Vicente, de alguma forma. Ele as reconhecia nas ruas e tocavam em seus corações ao aproximarem e elas nem percebiam. Apenas davam gargalhadas ou então sentiam algum tipo de saudade inexplicável, como a que senti ao vê-lo sorrindo entre os meninos presos na FEBEM. Quis chorar naquele instante, porém ele me advertiu que eu poderia ser descoberto por alguns mamelucos ainda muito teimosos e revoltados, causando algum tipo de inquietação naquele local.
Padre Vicenzo lembrou que o governo já estava pensado em desativar os reformatórios em todo o estado e encontrar outra forma de educar essas crianças. Esse formato era muito perigoso e atraia muitas almas inimigas e vingativas, como nas as prisões de adultos e hospitais psiquiátricos. Naquele momento recordava de todos os abusos e violências sofridas pelos nossos irmãos e que as mesmas coisas aconteceram com os africanos escravizados. “Até chegar a solução –disse o padre - já nos preparamos para enfrentar outras batalhas, pois os meninos já estarão adultos e poucos terão forças para se reajustarem com a lei. Daqui há algum tempo estaremos lá nas terras do Samaritá e em Mongaguá, reconduzindo as nossas almas perdidas”. Ele estava se referindo à construção dos presídios para adultos, na área Continental e no Litoral sul. Não entendi porque construir presídios ao invés de escolas. O padre sorriu e me fez entender que essas almas que acabam indo para os presídios são antigos mamelucos desviados para o crime e, por não aceitarem a educação, vão agravando seus débitos. Todas as cidades que foram fundadas a partir da corrupção e destruição de núcleos indígenas hoje abrigam esses criminosos em presídios e também nos educandários prisionais para jovens. Como é um sistema imperfeito e agravado pelo convívio pernicioso, a maioria não consegue se regenerar. Não há outra solução no momento senão a de curar pelas semelhanças.
Padre Vicenzo vem atuando nesse setor há muitas gerações. Quando o Paraná ainda fazia parte da Capitania de São Paulo, ele foi encarregado de reeducar um grupo de soldados rebelados que foram condenados ao isolamento na colônia de Catanduvas. Os soldados eram do regimento de Santos, a maioria com idade entre 18 e 24 anos, entre eles muitos vicentinos. Desolados pela condenação injusta, aqueles soldados só puderam avaliar a gravidade dos seus gestos quando receberam a sentença que destruiria suas esperanças pelo resto de suas vidas. Pensavam em fuga ou suicídio, o que era praticamente a mesma coisa viver para sempre numa região tão distante e selvagem. Vicenzo sabia que aqueles jovens não eram tão inocentes e injustiçados quanto eles pensavam. A memória do padre ia além daquela existência frustrada pela condenação. Todos eram mamelucos que participavam de incursões criminosas para expulsar os índios de suas terras, a serviço de fazendeiros ambiciosos. As incursões eram traiçoeiras, violentas e cruéis e não poupava nem as crianças, que tinham seus crânios esmagados pelo cabo das espingardas. Viam os índios como animais que atrapalhavam a criação de gado e o plantio das lavouras. Muitos desses grupos expulsos ou mortos por eles se reuniram nessa região do Paraná e continuaram sofrendo com a ambição dos fazendeiros. Perguntei o que aconteceu com os rapazes e ele me respondeu que havia feito um plano de regeneração para cada um deles. Obteriam anistia da pena de 20 anos se constituíssem família com as mulheres indígenas da Colônia, já educadas para esse fim. Aceitando a proposta, eles receberiam terras se estabelecerem como sitiantes. Nem todos conseguiram honrar o compromisso, entretanto os que se firmaram nessa promessa colheram bons frutos naqueles dias e também em outros tempos que viriam. “E os que desertaram”? perguntei. Padre Vicenzo respondeu que alguns deles estavam ali no reformatório de Paranapuã, aguardando dias melhores.
Acordei desse cochilo rápido e, ainda impressionado, voltei para a praia. Já estava escurecendo e meu estômago pedia um café com bolo. Na caminhada em direção ao centro, sempre com a imagem dos caçadores mamelucos e do Padre Vicenzo, vinha pensando onde iria encontrar um lugar que tivesse um bolo pronto para vender, de preferência bolo de fubá. Lá resolveria, dependo do calor, se tomaria café ou um guaraná bem gelado para acompanhar o bolo.
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VICENTE FALA, LÊ E ESCREVE COISAS ESTRANHAS
Quando o Brasil ainda era Pindorama e não havia tantos portugueses dando ordens e cobrando impostos, a nossa terra era realmente um paraíso dos trópicos. Um mar imenso, que nos dias ensolarados era verde claro, transparente e que nos dias nublados tinha a cor cinzenta de ardósia. A floresta era sempre verde e densa, refletindo sua escuridão nas águas do mar, protegendo a terra do calor e das chuvas torrenciais que aconteciam entre as estações. Quem caminhasse na praia, de dia ou de noite, olhando o azul infinito ou seduzido pelas luas, tinha a impressão de estar no paraíso, o Pindorama dos Sonhos. Mas não era impressão. Era o paraíso mesmo.
Nessa época já se viam muitos navios passando pra lá pra cá e, de vez em quando, um deles estacionava na grande ou na pequena enseada e ali ficava por algum tempo até que alguns tripulantes descessem uma embarcação menor , entrassem dentro dela e remassem em direção à praia. Ouvia-se nesse instante alguns gritos vindos da casa do alto do mastro da embarcação indicando a direção da terra, quebrando o silêncio, indicando o rumo que o pequeno bote deveria tomar. Alguém no bote sempre gritava de volta:
- Cala essa boca que já estamos quase na areia!!!
A língua estranha é essa que agora falo e escrevo com naturalidade, tão natural como o tupy que todos falávamos. Só não sabíamos escrever porque não era necessário. Tudo que era necessário estava guardado na memória e os mais velhos nos ensinavam a não esquecer essas coisas importantes que mais tarde seriam uteis. Entre nós já existia alguns homens iguais ao que desciam dos navios estacionados, homens que sobreviviam aos naufrágios e viam dar na praia, desesperados, famintos e cansados de nadar. Homens marcados pelo degredo e homens do naufrágio, cujas embarcações se despedaçavam nas pedras ou simplesmente afundavam durante as tempestades. O mais calmo deles era o náufrago Ramalho, que andava nu e percorria todos os lugares atrás de riquezas e novidades. Era muito curioso e queria saber de tudo o que existia e também o que acontecia em nosso e nos outros pindoramas. Era um homem de estatura média, cabelos encaracolados e, como todos daquela época, usava uma volumosa barba que lhe servia marca de honra e coragem. Sua aparência e comportamento revelava que tinha sido alguém importante em Vouzela, sua cidade natal, pequena vila distante três horas de Lisboa. Figura misteriosa que até hoje ninguém sabe como e por quê veio parar no Brasil, se por impulso aventureiro e ânsia de vencer na vida ou por causa de um grave erro cometido ou ainda vítima de perseguição religiosa. Nessa última hipótese ele poderia ser um cristão novo ou judeu convertido, tese pouco provável pois nunca levantaram tal suspeita durante seus embates políticos ou negociatas permitidas somente aos cristãos de tradição.
Havia também o Bacharel, degredado que falava um pouco diferente do Ramalho e do Rodrigues, um sotaque mais duro e de som estridente e sibilado, que combinava muito bem com o seu jeito mandão e agressivo. Esse era o Fernandes, como o chamavam os outros brancos e depois todos nós. Cosme Fernandes era judeu-espanhol, muito ligado aos negócios do Porto de Lagos, principal porta de entrada de escravos na Europa. Fernandes olhava o tempo todo para o mar, procurando navios. Ramalho e Rodrigues olhavam o tempo inteiro para as montanhas. O Bacharel era habilidoso com as mãos e muito inteligente para fazer planos. Queria que o lugar fosse atraente e despertasse a atenção de outros navios com os quais pudesse fazer negócios de trocas. Andava sempre acompanhado de muitos de nós, que pensavam e agiam como eles, ávidos pelas novidades de ferro, panos para o corpo, armas mortais para caça e guerra. Era um pequeno exército pronto para o combate em defesa da terra e dos negócios. Junto com Fernandes eles construíram um pequeno porto atrás da Ilha do Sol, no pequeno mar, onde tinha outra saída para o Atlântico, próximo ao Piaçabuçu, o grande rio que vinha da montanha. Era um lugar seguro e protegido de tempestades e de malfeitores do mar. Junto ao morro do Japui fizeram um capão com algumas cabanas, uma grande casa de pedras e ao redor delas plantaram raízes, legumes, grãos, frutas e criavam animais que conseguiram dos navios que passaram a aportar ali com mais frequência. Ao lado do porto construíram também uma oficina de embarcações, onde faziam reparos e até outros navios, de encomenda.
Fernandes sabia recompensar os nossos irmãos que andavam com ele, dando-lhes coisas valiosas e ensinando outras que eram úteis no dia a dia. Eles o acompanhavam aos lugares próximos e distantes, para fazer negócios, como na Cananéia, quatro dias e noites para o sul, onde havia outros brancos iguais a eles. Esses cananeus eram mercadores de escravos, capturados nos pindoramas espalhados naquela região e também no Peabiru, enquanto caminhavam pela floresta. Nossos irmãos capturados, geralmente meninos e meninas, eram entregues nos navios e dali eram levados à Europa, onde eram revendidos. As meninas eram oferecidas nas casas ricas ou nos bordéis, que as transformavam em mercadorias sexuais exóticas. Os meninos ser tornavam serviçais até ficarem velhos, alcoólatras e moribundos, jogados pelas ruas das cidades portuárias da Espanha ou da França. No começo as capturas de escravos eram escondidas, para evitar o temor nos pindoramas mais próximos das praias. Com o tempo elas se tornaram mais frequentes, causando estranhamento e desconfiança em todos. Elas eram ensinadas aos nossos irmãos pelos velhos marinheiros que conheciam as artimanhas da captura. Esses marujos eram contratados nos portos do Mediterrâneo, sobretudo em Lagos. Os nossos irmãos antigos, que se misturaram com eles, foram se afastando e deixando de ser nossos irmãos, passando a nos tratar como estranhos e até inimigos. Já não falavam mais o tupy e se acostumaram a usar roupas e botas. Passamos a chamá-los de mamelucos, gente traiçoeira e perigosa, doentes da cabeça e dominados pela ambição.
A Ilha do Sol foi ficando mais distante de Gohayó. Nem o Ramalho e o Rodrigues gostavam de ir lá porque o Fernandes e seus filhos mamelucos os estranhavam. De tempos em tempos o grande chefe Tibiriçá vinha de Piratininga, depois da montanha, onde morava, até a Gohayó. Fazia muitas perguntas para Ramalho e para Rodrigues sobre o Fernandes e os mamelucos dele. Ramalho ficava quieto e contrariado, com medo que Tibiriçá os atacasse com seus guerreiros. Não gostava de Fernandes, mas não queria afastá-lo por causa dos negócios. Tibiriçá não entendia muito bem o que Ramalho lhe explicava, porém ficava intrigado, embora confiasse no seu genro. Quando isso acontecia, Ramalho procurava distrair Tibiriçá convidando-o a caminhar e mostrar as coisas que tinha descoberto. Andavam o dia inteiro sem se cansarem. Voltavam já “à tardinha”, com diziam os brancos, quando o sol estava se pondo. Tibiriçá queria saber como o Fernandes tinha feito aquela oca de pedras. Queria fazer ocas iguais no Piratininga, para ele e para seus filhos. Ramalho prometeu descobrir e ensinar, explicando que teriam que encontrar e carregar muitas pedras.
Tibiriçá não ia a lugar nenhum sem Bartira, sua filha mais forte e atirada, que queria ser guerreira, mas por ser mulher não deveria lutar como os homens do pindorama. Foi por isso que Tibiriçá deu Bartira para Ramalho, dizendo a ela que o amigo precisava aprender a ser igual a eles e governar os pindoramas quando ele fosse morar em Alvorada Nova, lugar dos mortos que ficava dentro das águas das cachoeiras. Os brancos mortos diziam que ao morrerem iriam para o céu, lugar feliz; ou para o inferno, lugar triste e escuro, onde se reuniam os maus e os mamelucos. Nossos mortos de coração limpo caminhavam até as cachoeiras e ali encontravam uma porta que os levavam ao lugar onde as manhãs só acabavam quando as noites enluaradas ocupavam o lugar do dia, cheias de encantos e mistérios. As manhãs eram sempre novas, depois das noites de lua, quando reencontravam seus entes queridos que já tinham partido e também todos os animais caçados, que haviam morrido para que se alimentassem.
Nem Tibiriçá nem Ramalho acreditavam muito nessas histórias, geralmente contadas por Bartira a eles, aos seus filhos e netos. Mas todos ouviam em silêncio, com curiosidade, medo e respeito, até que ela terminasse. Bartira vivia tendo sonhos premonitórios nos quais chegavam muitos navios e que neles estavam guerreiros que lutavam furiosamente contra Fernandes e os mamelucos. Nos sonhos ela e Ramalho eram gigantes e estavam no mar quando os navios passavam entre as suas pernas, sem que fossem tocados ou molestados dirigindo-se à praia com tochas de fogo em busca dos mercadores de escravos. Bartira acordava assustada querendo conversar e compreender o que significava esses sonhos, porém Ramalho a distraia com histórias sobre o lugar distante onde havia deixado seis pais e seus irmãos, dizendo que um dia todos iriam para lá visitá-los. Bartira pegava no sono novamente enquanto Ramalho permanecia acordado pensando no sonho da esposa índia e nos seus sonhos de homem branco.
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ÍNDICE
1. O tempo de Gil
2. Ana Clara precisa ir embora
3. Aurora que não desperta
4. Zé Ricardo procura e acha
5. Ronaldo de outro mundo
6. Renato está angustiado
7. Dona Antônia tem visita
8. Rita não tem medo
9. Alice no País das Grávidas
10. Gil no mundo da Lua
11. Júlio e o Arco Íris
12. Paulo precisa voltar.
13. Carlos têm a Palavra
14. Rachel precisa mudar
15. Afonso ensina a ouvir
16. Luciana quebra o silêncio
17. Sidnei choveu na horta.
18. Fabiano ensina a não engolir o choro.
19. Cláudio desvenda a mesa e o labirinto
20 . Wanderley e a tempestade
21.Ricardo reencontra Rosalinda
22. José Renato foi no Céu
19. Fernando encontra os Sobreviventes
20. Flávio e Débora são sonâmbulos
21. Josué pesquisa o destino dos suicidas
22. Juliana e Claudio na Torre do Tempo
23. Fernanda e Rafael na Cidade Maravilhosa
24. Ricardo em outras praias
25. Olavo e Paulo Henrique se lembram do padre
26. Milton, pressa e papo reto.
27. Claudio conversa com Anjos da Guarda
28. Luiza e Joel tiveram um encontro
29. João Paulo, Gilson e a Torre Eifell
30. Gabriel , Jerônimo e o ônibus veloz.
31. Susana sonha e vê o futuro
32. Lauro "Francês" e o vizinho "Pablo"
33. Vicente em Dé javu
34. Vicente reencontra Vicenzo
35. Vicente redescobre a Bicicleta
36. Vicente fala, lê e escreve coisas estranhas